Ninguém melhor do que Jean-Michel Basquiat (1960-1988) para definir a arte de rua ao afirmar que nada como um esse coquetel: ser negro, grafiteiro, do submundo para um artista se expressar contra o establishment - o poder estabelecido no Estado.
Basquiat sucumbiu à mistura de cocaína e heroína, conhecida por ''speedball'' aos 27 anos. Porém, a sua trajetória polêmica o consagrou como o primeiro grafiteiro de Nova York, elevado ao Olimpo da mídia e do mercado de artes plásticas, adorado pela geração yuppie e outros seguidores, que chegam a pagar US$ 25 mil por umas obra do artista, que conquistou a cena de East Village, em Manhattan, e o mundo.
A história do rapaz virou filme dirigido por Julian Schnabel, com Jeffrey Wright no papel do artista plástico. Uma lenda que passou a influenciar grafiteiros ao redor do planeta, que buscam quebrar o muro da exclusão, pintando uma nova oportunidade de vida.
Ao contrário do ídolo morto precocemente de overdose, alguns grafiteiros londrinenses não ligam essa imagem à própria trajetória, mas buscam inspiração em Basquiat, que saiu das ruas, entrando pela porta da frente das galarias de arte. O establishment que, antes enxergava neles somente um bando de pichadores, agora é apoiador dessa nova geração de grafiteiros.
O poder público e ONGs londrinenses já realizam oficinas, e empresas, como a Artiteto, começam a valorizar a arte. ''Você vê muita propaganda e cartazes nos muros da cidade. A minha idéia foi de contratar esses profissionais para desenvolver um trabalho cultural nos tapumes de obras e espaços públicos. Entrei em contato com o trabalho deles num domingo, quando passei em frente de um muro grafitado por eles'', conta o empresário Aguinaldo Kemmer.
Em troca de material, como spray e solvente, a empresa divulga a marca nos painéis, o que para os grafiteiros é uma ajuda importante já que para pintar um muro podem gastar até R$ 350,00. Kemmer conta que outras empresas já demostraram interesse em anunciar dessa maneira. ''Uma cliente nossa, que viu as pinturas e gostou tanto que pediu para que os grafiteiros pintassem o seu quarto'', comenta o empresário.
O muro do cemitério São Pedro, banheiros do Calçadão, tapumes em ruas como a Souza Naves, esquina com a Goiás, ganharam um colorido, contrariando o desejo da poluição visual que faz farra com pichações e aplicação de cartazes. Uma curiosidade sempre desperta motoristas e pedestres que passam pelos muros, que estão sendo pintados. Alguns param para observar melhor os trabalhos.
O grafiteiro e tatuador, Tadeu Roberto Fernandes de Lima Júnior, que gosta de ser chamado de Carão, 26 anos, se dedica ao grafite desde 2003, levando a sua arte para a França, onde morou por um ano e meio. ''Na França, eu trabalhei mais como tatuador e também na construção civil, mas tive tempo para grafitar muros em Paris. A qualidade estética dos grafiteiros brasileiros chama a atenção dos parisienses. Naquele país existe mais incentivo para a arte'', comenta Carão, que gosta de pintar caricaturas.
O londrinense em breve deve lançar um DVD com as pinturas que fez na capital francesa e região. Cada grafiteiro deixa a sua marca nas paredes, o que torna fácil o reconhecimento do autor.
A trajetória desses londrinenses não cruzou a linha do vício de Basquiat, mas que passou perto de outros jovens grafiteiros que, mesmo depois de um contato com a arte, perderam o rumo e o direito autoral da própria história.
O educador social, Hugo Fabiano da Rocha, 26, costuma deixar nas parades a sua marca ao pintar letras. Ele já foi campeão paranaense de grafite numa competição em Maringá. ''Conheço muita gente que saiu da situação de risco com os grafites'', conta Rocha, lembrando que esse tipo de arte exerce uma atração em que vive nesse limite, já que é uma maneira de se expressar.
O traço do grafite na parede é tão forte ao ponto de despertar outros interesses nos jovens. Alisson Fernando Alves Corneta, 27, seguiu essa linha até encontrar o curso universitário de Educação Artística. Ele diz que o curso lhe trouxe novos conhecimentos. A universidade o fez pensar melhor o grafite.
Carão acrescenta destacando o poder de inclusão do grafite. ''Crescemos na periferia, vendo gente morrer na nossa frente. Nós começamos cedo com a arte. Não sei se não estivéssemos fazendo isso não estaríamos também no crime'', conclui o jovem.

mockup