VISUAIS - Décadas de boa pintura
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de maio de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O curador e galerista Waldir Simões de Assis Filho ainda estava às voltas ontem, com a liberação de cerca de 30 obras do artista pernambucano Cícero Dias (1907 - 2003) que, por questões burocráticas, ficaram retidas em São Paulo. As obras são de colecionadores franceses e, se chegarem a tempo, vão integrar uma das mais completas exposições do artista brasileiro já realizada. A exposição ''Cicero Dias - Oito décadas de pintura'' é um projeto ambicioso, que reúne cerca de 200 obras do pintor oriundas de 70 acervos distintos, de museus a colecionadores particulares. A exposição, que tem apoio da Lei Rouanet a Lei Federal de Incentivo à Cultura abre hoje, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.
O projeto da exposição está sendo organizado desde 2003, ano da morte do artista, quando o curador já tinha mapeado quase todas as obras de Dias existente no mundo. Waldir Simões integra, ao lado da viúva do artista e outros dois membros, um comitê que leva o nome do pintor e que tem por objetivo justamente rastrear e recuperar as obras dele. E por integrar a instituição, dominar o conhecimento das fases que integram a produção do artista e também por ter conhecido Cícero Dias há 20 anos, o curador é categórico ao afirmar que a mostra percorre toda a produção pictórica do artista, que morreu em Paris, aos 96 anos.
Dias nasceu em Pernambuco e foi descoberto pelos modernistas mais consagrados, como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Mário de Andrade. ''Nessa época, durante os anos 20 ele já era considerado um jovem promissor por esse grupo'', salienta Simões. Dias ficou no Brasil até quase o final da década de 30, quando partiu para Paris. Na capital francesa ficou até os seus últimos dias, tendo apenas uma lacuna. Em meados da década de 40, chegou a morar em Lisboa, quando começou sua fase abstracionista. ''Ele foi se libertando de elementos figurativos até chegar na abstração total'', analisa o curador.
Todas essas fases estão registradas na exposição, que faz uma retrospectiva da produção do artista desde a década de 20 até os anos 90. Entre as obras exibidas está desde o primeiro quadro pintado pelo artista aos 14 anos, datado de 1921, até suas últimas produções. A exposição é organizada em módulos representativos de cada um dos períodos. Parte das obras retrata o período modernista, entre os anos 20 e 30, e passam pelas fases subsequentes dos anos 40, englobando o período de Lisboa, a série Vegetal e o início da desconstrução da forma, a partir dos anos 50.
''Em todas as fases, ele foi um pintor que registrou o Brasil em todas as cores'', diz Simões. ''Em sua obra, Cícero Dias conservou a luz brasileira'', complementa. O curador foi apresentado ao pintor em 1986, pelo também artista Juarez Machado. Desde essa época, manteve uma relação profissional e de amizade com o artista pernambucano, promovendo exposições suas no Brasil e no exterior. ''Tivemos uma grande afinidade'', revela.
Todas as obras expostas são um convite ao conhecimento da trajetória de Cícero Dias e tendem a revelar o universo mágico presente na sua produção. Algumas obras inéditas, no entanto, merecem atenção especial, como o quadro ''Distante'', que pela primeira vez será exposta no Brasil. A obra, em óleo sobre tela, data de 1940, e foi pintada sob a forte influência da amizade que Dias manteve com Picasso, na França.
''Cícero Dias - Oito décadas de pintura'' abre hoje para convidados e está aberta ao público a partir de amanhã. Quanto às obras que estavam retidas em São Paulo até a tarde de ontem, o curador Waldir Simões garantiu que elas chegariam a tempo da abertura da mostra, hoje.
Serviço:
- Cícero Dias - Oito Décadas de Pintura, abertura hoje, às 19 horas no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999). Visitas de terça a domingo, das 10 às 18 horas. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00.


