VISUAIS - CRIATIVA IDADE
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quinta-feira, 28 de abril de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O artista plástico londrinense Agenor Evangelista armou uma festa inusitada para celebrar seu aniversário de 51 anos. Preparou a exposição ''A Arte na Emoção'' reunindo, exatamente, 51 trabalhos. A individual será inaugurada amanhã, às 20 horas, na Casa da Capoeira Expressiva (Rua Minas Gerais, 69, Centro) apresentando aquarelas, esboços, mini-quadros e pinturas em acrílica sobre tela.
''Apesar do tom comemorativo, não será uma retrospectiva de carreira. São obras produzidos nos últimos meses'' esclarece ele. A festa contará com discotecagem ''black music'', comandada por Nilson Fakir e Patrícia Magalhães, além de shows das bandas Dechavo (de hardcore), Apê 318 (pop/rock) e Lado B (reggae). É a segunda vez que o artista sopra as velas do bolo com uma exposição.
Quando completou 40 anos, fez uma vernissage no Sesc do Aeroporto. Agora, avisa, pretende transformar a coincidência de eventos em tradição. ''Daqui para frente, quero marcar a data sempre com arte'' anuncia. Os novos trabalhos reiteram as marcas já registradas de sua produção, calcada no figurativo e na temática social. ''São cenas urbanas e suburbanas com influências afro'' explica.
As imagens incluem cenas de bar, garotos jogando bola na favela, meninos soltando pipa. Agenor conta que desenvolveu seu estilo a partir do impacto provocado pelas obras de Cândido Portinari e Di Cavalcanti. O teor social nas telas do primeiro e as mulatas pintadas pelo segundo o estimularam a encarar a carreira profissional.
Di Cavalcanti, particularmente, exerceu influência até em seu comportamento. ''Com ele, descobri o marrom e uma vida voltada para as mulheres e a boêmia'' confessa. Bom de copo, como costuma dizer, Agenor revela que muitas de suas obras começam ou terminam em bares com mesas na calçada. ''Peguei o estigma dos artistas impressionistas. Não consigo trabalhar apenas dentro do ateliê. Tenho que sair, pintar ao ar livre'' explica.
Londrinense da gema, nascido na Vila Portuguesa, ele começou a manipular tintas e pincéis no começo da década de 70. Na época, ganhava a vida como operador de tráfico telegráfico na agência de Correios, cujo salário lhe permitia gastar com materiais para pintar e desenhar. O emprego, no qual permaneceu durante dez anos, garantiu razoável estabilidade para dedicar as horas de folga à arte.
Até então, trabalhara como engraxate, catador de papel, entregador de jornais e em outros sub-empregos na economia informal. Quando garoto, adorava ler revistas na Biblioteca Pública. Certa vez, folheou uma edição da Cruzeiro e ficou fascinado com uma reportagem sobre a construção de Brasília. Maravilhou-se com as linhas e curvas das edificações projetadas por Oscar Niemeyer na Capital Federal.
Foi o primeiro sintoma de sua inclinação para o desenho. Mais tarde, passou a estudar técnicas, tintas, noções de cor e expressividade frequentando ateliês de artistas locais como Paulo Menten, Henrique Aragão, Cláudio Cambé e Djalma de Souza. Em meados da década de 80, começou a ganhar reputação ao vencer concursos da capa telefônica da Telepar. Na mesma época, conquistou a medalha de ouro em Aquarela no 3º Prêmio Salão Portinari, em São Paulo.
Paralelamente, engajou-se no movimento de consciência negra da cidade organizando eventos culturais. Foi presidente do Mecab Movimento de Estudo da Cultura Afro-Brasileira. ''Não sou um artista que fica só pintando suas telas. Sou um artista político, que atua na política cultural da cidade'' afirma.
Ele ajudou a fundar a Mostra Afro Brasileira Zumbi dos Palmares, com o objetivo de apresentar obras temáticas de artistas novos e consagrados. A vigésima edição, aliás, ocorrerá em novembro desse ano e já está sendo preparada. ''Vamos reunir oito artistas revelados ao longo dos anos na Mostra, além de dedicar salas especiais para Marcos Oliveira e Lourdes de Deus (mulher de Waldomiro de Deus)'' adianta.
Ele também foi um dos criadores do ''Boulevard das Artes'', um espaço ao ar livre voltado para a divulgação e comercialização de trabalhos de artistas locais. A primeira versão funcionou aos domingos, entre 1990 e 1992, na Praça Floriano Peixoto (da Bandeira). A população, porém, não aderiu à iniciativa deixando os artistas às môscas. Gradativamente, eles abandonaram o local.
Uma segunda versão do Boulevard ocorreu em 2001, dessa vez no Calçadão, aos sábados. Na ocasião, um grupo de 30 a 35 artistas se revezava para manter a idéia de pé. Mas no ano seguinte, a CMTU obrigou-os a deixar o novo ponto. ''Os responsáveis pelo órgão da Prefeitura confundiram os artistas com os camelôs expulsando-os de lá. Não deu para entender, porque a própria Secretaria de Cultura do Município havia credenciado os participantes. Havia 70 artistas inscritos'' lembra ele, indignado.
Agenor lamenta a escassez de lugares para expor na cidade. Diz que, nos últimos 20 anos, Londrina perdeu em vez de ganhar espaços. ''Não é por acaso que artistas como Leticia Faria, Henrique Aragão e Cláudio Cambé deixaram a cidade'' observa. Apesar desses problemas, ele diz que conseguiu criar um mercado para seus trabalhos. ''Quando estive em Campinas (SP), cheguei a vender 10 obras para um alemão interessado em arte brasileira'' conta.
''Mas é oscilante. Tem mês que vendo 10 trabalhos, tem outro que não vendo nada. É uma atividade de corpo-a-corpo. Não dá para ficar parado no ateliê esperando os clientes. Sou um artista do povo, vou para a rua. Negocio os preços. Consigo pagar minhas despesas. Consigo me manter da arte sem sofrimento''. A exposição do artista fica em cartaz até o dia 21 de maio.
Serviço:
- Amanhã: Abertura da exposição ''Arte na Emoção'', de Agenor Evangelista. Horário: 20 horas. Local: Casa da Capoeira Expressiva (Rua Minas Gerais, 69, Centro). Apoio: Museu de Arte de Londrina. Visitação: de segunda a sábado, das 9h às 18 horas, até o dia 21 de maio. Mais informações: tel. (43) 3324-1069.


