Curitiba Os hábitos estranhos de um grande artista brasileiro, desmerecidamente pouco conhecido do grande público e a paixão de um poeta, jornalista e colecionador trazem para Curitiba duas exposições magníficas abertas ao público partir de hoje, no Museu Oscar Niemeyer (MON). A mostra ''Farnese (Objetos)'' do artista Farnese de Andrade e a exposição ''Odorico Tavares - A Minha Casa Baiana - Sonhos e Desejos de Um Colecionador de Arte'', nada tem a ver, mas mostram separadamente como a arte do século 20 foi rica e como há no Brasil grandes coleções para comprovar isso. As mostram marcam os dois anos de atividade do MON.
E se a obra do mineiro de Araguari, Farnese, traz 130 peças algumas inéditas , montadas por ele a partir de mistura de objetos (madeiras, cabeças de bonecos, fotos de família feitas por um tio, pedaços de objetos do mar, pregos, caixas) onde o artista fazia uma arte autobiográfica sempre reverenciando fatos da vida cotidiana que afligem a todos, a coleção de Odorico Tavares mostra a paixão de um homem pela arte.
Farnese chega em uma mostra com a curadoria do amigo Charles Cosac. Responsável pelos textos do catálogo lançado junto com a exposição, Charles explica o que o trabalho do artista provoca nas pessoas que o vêem. ''Farnese brincava muito com o lado obscuro das pessoas, se divertia com isso. Acho que ele queria mostrar o ruim que tem dentro de nós e que não tem dentro de uma criança'', conta. Segundo Cosac, que conviveu com ele nos seus últimos dois anos de vida entre 94 e 96, o artista tinha problemas com empregados adultos que trabalhavam em sua casa. Muitos não queriam ficar lá por medo das obras. Realmente ver pela primeira vez seus objetos causa uma certa inquietação. Obras como, por exemplo, ''Hiroshima'', a única vez em que Farnese trata de um tema que não é autobiográfico, levam o observador a uma realidade visual crua e forte. Farnese coloca num vidro uma carcaça de animal, uma cabeça de boneco e vários bebês de plástico para representar as mortes na explosão.
Cosac conheceu o trabalho de Farnese através do artista Siron Franco. Mestre em história e teoria da arte pela Universidade de Essex na Inglaterra, acabou se aproximando do artista e estabeleceram uma profunda amizade. Foi ele quem escreveu a primeira obra sobre Farnese, a partir de uma mala de fotos que ganhou do amigo, pouco antes dele morrer. A idéia de fazer essa exposição que chega hoje a Curitiba e que é a maior já montada com obras do artista veio de uma parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra já esteve no Rio e em São Paulo, mas Cosac acredita ser o MON o lugar mais apropriado para expor os objetos. ''Oscar Niemeyer e Farnese formam uma combinação
imbatível'', diz.
Segundo especialistas, o trabalho de Farnese não foi analisado pela crítica e tampouco absorvido nas suas duas últimas décadas de vida. Mas isso não quer dizer que não seja fácil entendê-lo. Suas obras são também plásticas, como na série de oratórios. Farnese tratava de assuntos como a religiosidade de uma forma bem particular (ele era espiritualista, acreditava em vida após a morte) e deixou um belo material sobre o assunto.
Já a exposição de Odorico Tavares que sai pela primeira vez de sua casa na Bahia, há uma diversidade de obras. Há quadros de Portinari, Di Cavalcanti, Djanira, Segall, Picasso, Miro, Matisse, entre outros. As 444 peças têm curadoria de Emanoel Araújo e, segundo ele, representam uma das mais belas coleções da arte moderna brasileira.
Homem de Assis Chateubriand na Bahia, Tavares foi um grande apoiador de iniciativas culturais no seu estado. Foi ele quem fundou o Museu de Arte Moderna baiano e quem acompanhou o fotografo Pierre Verger em sua primeira visita ao Brasil.

SERVIÇO:
- Exposições ''Farnese: Objetos'' e ''Odorico Tavares: A Minha Casa Baiana - Sonhos e Desejos de Um Colecionador de Arte''. De hoje a 23 de outubro, no Museu Oscar Niemayer (Rua Marechal Hermes, 999), em Curitiba. Entrada: R$ 4,00 (adultos) e R$ 2,00 (estudantes). Crianças até 12 anos, maiores de 60 e grupos de estudantes de escolas públicas pré-agendados, não pagam. Visitação: de terça a domingo, das 10 às 18 horas.Mais informações pelo telefone (41) 3350 - 4400

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