VISUAIS - Contatos imediatos com a arte
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de novembro de 2003
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Conhecer de perto as obras de artistas contemporâneos renomados foi uma experiência inédita vivenciada na semana passada por 30 alunos da Escola Municipal Eugênio Brugin, do Conjunto São Lourenço (região sul), que participaram de uma visita monitorada à IX Semana de Arte, que acontece até domingo, na Casa de Cultura.
Com olhinhos atentos e com muita concentração, todos os alunos, com faixa etária entre 8 e 10 anos, acompanharam a introdução realizada no início da visita pela arte-educadora Juliana Miranda de Freitas: ''o artista quer se comunicar com a gente, mostrar a visão dele sobre o mundo, a sua reflexão sobre as coisas. Vamos refletir juntos, pois cada um tem a sua leitura, que é influenciada pela sua própria história de vida''.
Durante a visita, os alunos puderam conhecer o trabalho da artista plástica Shirley Paes Leme (Uberlândia/MG), que a partir de uma brincadeira de infância, que fazia com a avó, aprendeu a desenhar no papel com sumo de limão e passar uma vela atrás para ver os desenhos ficarem coloridos. Com essa inspiração, criou na exposição a obra intitulada ''Risca'', em que em uma chapa de vidro de 138 kg elaborou desenhos feitos com fumaça. A obra é tridimensional e no local de instalação da obra há um forro de cetim, para que o espectador não veja o teto e fixe sua atenção na obra. O fascínio da artista pelo fogo, contou um dos monitores, fez com que desenvolvesse um gel que preserva a fumaça, mais um dado que também chamou a atenção das crianças.
Outro trabalho visitado por eles, foi o do artista Danillo Villa (Londrina), principalmente as peças em argila, ''de massinha'', na linguagem das crianças. ''Parece um tronco de árvore e o formato dele é para cima, com uma forma arrendondada na ponta, como um balão, que vai em direção ao ar'', comentou um dos participantes, observando as formas plásticas utilizadas pelo artista.
As obras de Fernando Augusto (Londrina), que faz uma releitura a partir da morte do seu pai, expressas em pintura, desenhos e fotografias, inclusive do velório, gerou um sentimento de estranheza entre os alunos. ''Não acho que ele deveria ter mostrado isso. É um momento triste e não sei como deixaram ele tirar foto disso'', comentou a aluna Andrielly Rodrigues André. O seu colega Júlio César Andrade de Mello também não gostou dessa manifestação artística. ''Não sei muito bem porque não gostei, mas achei esquisito ele ter feito o desenho de um grande caixão'', falou o aluno. Por outro lado, algumas crianças foram enfáticas: ''ele não está falando da morte, está falando da vida do pai dele''. O curioso é que a todo momento perguntavam onde estaria o artista nas fotos e nos desenhos e parecia intrigante entender que ele não apareceria por ser ele próprio quem estaria registrando aqueles momentos de dor.
A aluna Amanda Esthphanie Seixas Teixeira, 8 anos, disse que o que mais gostou foi a instalação da artista Sheila Dias de Souza (Londrina), com diversos trabalhos baseado na cultura indígena. ''Gostei muito do trabalho com folhas de bananeira. Já imaginei um índio com arco e flecha...Adorei o passeio e gostaria que tivesse mais vezes. Na escola, também poderia ter mais aulas de artes'', acrescentou.
Um dos trabalhos mais admirados pelas crianças foi a série de quadros de Marco Gianotti (São Paulo/SP). ''Adorei os tons de cores que ele utiliza'', ponderou Adrielly. Questionada se gostaria de ser artista plástica, adiantou: ''já sou uma artista. Faço aulas de pintura na Bibliotea Virtual e meu pai vai comprar telas grandes para eu pintar e, quem sabe, no futuro, eu também vou estar em uma exposição''.
A professora Andressa Fenício Coraiola acredita que esse tipo de experiência contribui para o desenvolvimento da sensibilidade dos alunos. ''Mesmo que alguns sejam de bairros bem carentes, e tenham uma realidade mais distante do que estão vendo aqui, essa observação contemplativa faz com que eles desenvolvam a própria sensibilidade e a adaptem para a sua realidade'', ressaltou.
A arte-educadora Juliana informou que já não há mais vagas para reservas de visitas monitoradas de escolas. Desde o início da exposição, cerca de 800 alunos já participaram das visitas. ''A procura está sendo imensa e isso demonstra que cada vez mais as pessoas estão reconhecendo a importância desse tipo de trabalho. Procuramos desenvolver uma linguagem mais didática para que todos possam perceber que a arte pode ser acessível e que eles devam fazer a própria leitura. O nosso trabalho é de 'intermediação do olhar', instigar o questionamento, a reflexão individual''.


