Curitiba - Na década de 50, o pernambucano Francisco Brennand foi estudar pintura em Paris e se deparou com uma exposição de cerâmica de Pablo Picasso. Nascido numa família de ceramistas e até então desprezando a técnica dentro da sua produção, Brennand diz ter se sentido ''desmoralizado'' com as obras do pintor espanhol. ''Imagine um artista brasileiro cheio de novas idéias encontrar o mestre da pintura fazendo cerâmica há três anos. Ora, eu já podia estar fazendo isso!'', indigna-se. Brennand fez então um juramento interior: trabalharia com a cerâmica técnica pela qual, confessa, nutria certo preconceito assim que voltasse ao Brasil. Dito e feito. Três anos mais tarde, o artista transformou uma velha fábrica de azulejos herdada da família em seu ateliê e passou a produzir suas monumentais obras ali, nos arredores de Recife. Parte desse trabalho pode ser visto a partir de hoje no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba.
São quase 400 peças, entre esculturas, desenhos e estudos onde se destacam as esculturas de mais de três metros de altura e pesando toneladas. Na quarta-feira, durante a montagem da exposição, o artista de 77 anos apresentou parte das suas obras em coletiva de imprensa e desvendou detalhes do seu processo de trabalho desde que assumiu a cerâmica como técnica. Algumas obras são feitas em módulos e reproduzem com fidelidade outros materiais, como pedra e ferro. Exemplo disso são as sereias Lígia e Leucósia, seres alados amaldiçoados por Afrodite, interpretadas por Brennand em duas imensas esculturas. As peças integram o segmento ''Teatro das Representações Mitológicas'', uma das vertentes definidas pelo curador Emanuel Araújo para montar a exposição.
As obras foram divididas ainda em segmentos como ''A metáfora do grito'', onde o artista denuncia a questão da violência; ''A natureza prestes a atacar''; ''Os frutos da terra''; ''O corpo em mutação interior'' e ''Vítimas históricas''. O curador, que acaba de ser escolhido pelo prefeito eleito de São Paulo José Serra (PSDB), para assumir o cargo de secretário municipal da Cultura, revela que as vertentes foram escolhidas de acordo com o trabalho de Brennand durante a sua carreira. Para Araújo, as esculturas do artista têm uma clara influência da arte indígena, uma certa agressividade e uma sensualidade exacerbada que transformam o trabalho de Brennand em uma arte peculiar e única.
Nascido em junho de 1927, Brennand iniciou a sua formação na década de 40 e teve entre seus professores Abelardo da Hora, Álvaro Amorim e Murilo Lagreca, mas foi na arte de Picasso, Miró e Gauguin que ele encontrou respaldo para criar o seu próprio estilo. Nas 396 obras que compõem a mostra no MON, o artista e o curador procuraram revelar um panorama dessa trajetória. As peças são datadas desde a década de 70 até 2004, algumas são inéditas. São cerca de 60 obras que vão integrar o Templo do Sacrifício, que está sendo construído pelo artista no seu ateliê em São João da Várzea. As instalações do ateliê, aliás, abrigam mais de 3 mil peças do artista.
''Existe toda uma logística para executar e transportar esse material. Por isso minhas exposições não são tão frequentes'', conta o artista. As obras que fazem parte da exposição pesam cerca de 30 toneladas e chegaram ao museu acondicionadas em duas carretas. A exposição ocupa todo o primeiro andar do museu, incluindo as amplas vitrines em que foram instaladas algumas das esculturas.
Ao ser questionado se existe alguma obra ou fase da sua carreira que nutre apreço especial, Brennand responde: ''Eu evito dizer o que prefiro, porque no geral eu me engano. Mas o público pode. São as pessoas que escolhem as obras que se destacam, como a Monalisa, que é uma das piores pinturas de Leonardo da Vinci e no entanto, faz o sucesso que faz'', conclui.
Além da mostra de Brennand, o Mon abre também a exposição ''De Bona em Veneza''. A exposição apresenta uma seleção de obras produzidas pelo artista paranaense Theodoro De Bona (1904-1990) em Veneza, entre o final da década de 20 e meados da década de 30.

Serviço:
- ''Francisco Brennand - Esculturas/O Homem e a Natureza'' e ''De Bona em Veneza'' abertura hoje, às 20 horas, no Museu Oscar Niemeyer (Mon). O museu fica na Rua Marechal Hermes, 999. Aberto de terça a domingo, das 10 às 20 horas. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00.

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