VISUAIS - Casas que abrigam história
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de agosto de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Durante os oitos meses que passou viajando em busca de ''modelos'' para as suas fotografias, um detalhe chamou a atenção do fotógrafo Nego Miranda. A cada casa de madeira objeto da sua pesquisa encontrada, avistava também um pinheiro próximo da moradia, o que conferia ainda mais o sotaque paranaense à empreitada. ''Eu não sei se o pinheiro é preservado por causa da casa, ou ao contrário'', brinca Miranda. A busca do fotógrafo pelas casas de madeira começou há quatro anos, mas por percalços burocráticos, só agora ele mostra o resultado da longa trajetória. A partir de hoje, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, ele expõe 47 fotografias de construções em madeiras do Paraná. As fotos integram o livro ''Paraná de Madeira'', com lançamento hoje.
Editado com recursos obtidos por meio Lei Rouanet, o livro traz textos da arquiteta Maria Cristina Wolff de Carvalho, convidada por Miranda para contextualizar a pesquisa fotográfica. ''Eu sempre gostei de temas paranaenses e já havia trabalhado com essa temática antes. Dessa vez, decidi registrar as casas de madeira, que é um ícone do Estado'', conta Miranda, explicando o motivo da escolha. Depois da decisão e da busca por patrocínio, ele percorreu boa parte do Estado procurando essa arquitetura típica. Encontrou exemplares em Curitiba, região metropolitana, Balsa Nova, Pameiras, Irati, São Mateus e Prudentópolis.
São construções datadas do século 19 e 20, em sua maioria construídas por imigrantes europeus. Algumas delas estavam abandonadas, mas a maioria bem conservada e sendo utilizada até os dias atuais. O fotógrafo conta que nunca avisava previamente que ia fotografar. ''Chegávamos no local, explicávamos o nosso projeto e pedíamos permissão para entrar. Eu sempre me surprendia com a organização das casas'', lembra. Nas fotos de interiores que compõe o livro e a exposição por exemplo, é também possível notar a forte influência da cultura polonesa, ucraniana, italiana e alemã, para citar algumas, responsáveis pela origem dessa arquitetura.
''Mas esse estilo foi se modificando com o tempo. Os imigrantes trouxeram essa arquitetura, mas os paranaenses a adaptaram ao nosso clima e a nossa cultura'', considera Miranda. Para ele, as fotos das construções em madeira fazem um verdadeiro passeio pela história paranaense. Foram mais de 300 construções registradas que resultaram numa seleção de 250 fotos integram o livro. As fotografias são em preto-e-branco, mas no final de cada capítulo, Miranda dá espaço para um mosaico em cor.
O projeto ''Paraná em Madeira'' deu origem ainda a um outro trabalho, o livro e exposição ''Igrejas de Madeira'', com lançamento previsto para novembro deste ano. ''As fotografias de igrejas em madeira foram tiradas na mesma época, mas rendeu um livro à parte pela riqueza do material'', diz Miranda.
Carlos Alberto Xavier de Miranda, mais conhecido como Nego Miranda, nasceu em 1945, em Curitiba. Começou a expor seu trabalho ainda na década de 1970, participando, desde então, de eventos no Brasil, na Argentina, em Cuba, na França e em Portugal. Já foi premiado no 2º Salón Internacional de Fotografía, no 2º Concurso Ilford/Micro de Fotografia P&B, no Concurso Turismo no Paraná, na Bienal de Fotografia Ecológica do Rio Grande do Sul e no Museu do Mate do Paraná. Nego Miranda também publicou sua obra em revistas como a ETC (da Travessa dos Editores) e a Revista Gráfica; também já colaborou com o livro ''A História do Mate'', de Tereza Urban; com a coletânea de autores paranaenses Engenhos e Barbaquás; e com a publicação britânica de fotógrafos brasileiros Contemporary Brazilian Photography.
Entre as coleções e acervos que contém trabalhos seus estão os da Fundação Cultural de Curitiba, do Museu da Fotografia de Paris, da Coleção Joaquim Paiva, do Fundo Cubano de La Imagem Fotográfica e do Instituto Cultural Itaú.
Serviço:
- Mostra de fotografias e lançamento do livro ''Paraná de Madeira'', de Nego Miranda e Maria Cristina Wolff de Carvalho, no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999, Centro Cívico). Hoje, às 19 horas, com entrada franca. Em cartaz até 10 de novembro.


