A liberdade é um rio azul nos olhos de Henrique Aragão, onde ainda é possível enxergar o artista plástico menino, nadando nu no esplendor da própria arte. ''É como a música que ouvia dentro da minha cabeça, quando era menino e me fazia sair correndo pela serra, tirar a roupa e dançar na frente de um monte de bichos. Ficava lá, no meio deles, e só falava sobre isso com a minha mãe''.
As reminiscências de Henrique Aragão, de Ibiporã, um dos maiores artistas plásticos paranaenses, fazem a gente acreditar que está falando sobre uma entidade mitológica - caráter que assumem também as suas obras em latão, aço inox, madeira, telas e a indulgente arte sacra do menino de 76 anos de idade.
As peripécias da infância do artista pela Serra da Borborema, em Campina Grande (PB), tinham como única testemunha a mãe do artista, que fez da extrema pobreza da família, sabedoria, o seio com que alimentou o filho. ''Duas vezes, cheguei nu em casa. Minha mãe me perguntou: 'Por que você chegou assim, meu filho?'. Nesse momento, eu fiquei sabendo o que era nudez''.
O Dom Quixote das artes plásticas, que povoou praças, igrejas e galerias com os seus delírios concretizados em obras, venceu os moinhos de vento da miséria no Nordeste, conquistando um reconhecimento no Brasil e exterior, que agora está trasformando a sua Casa de Artes, em Ibiporã, na Fundação Henrique Aragão.
''A Casa de Artes Paulo VI tem mais de 40 anos de existência. Criamos com a intenção de promover a cultura artística em Ibiporã. Inicialmente, pensamos somente em incentivar as artes plásticas, mas apareceu aqui um grupo de jovens poetas, que acabamos ajudando também. Depois, vieram umas meninas que queriam aprender a dançar. Convidei a Yeda Marques Russo para ministrar aula, o que deu origem à Escola de Ballet da Fundação Cultural de Ibiporã. Em seguida, criamos o curso de teatro. A coisa foi acontecendo e a vida brotando com uma riqueza muito grande na Fundação Cultural de Ibiporã. Porém, há dois meses, estamos discutindo a criação da Fundação Henrique Aragão, que se dedicará exclusivamente às artes plásticas, com cursos livres. Se tivermos alguém interessado em aprender uma determinada técnica poderemos atender'', comenta Aragão.
A nova fundação já possui dois acervos importantes, sendo um com obras do próprio Aragão e outro de artistas que participaram de salões nacionais, estaduais e municipais.
''Tenho nesse acervo uma obra de Poty Lazarotto, três Brudizinski e também de Fernando Velloso. Isso foi dado a mim pessoalmente, mas tenho de passar para a comunidade. Não pode ser uma comunidade hipotética porque é preciso alguém para gerir esse acervo e, no caso, o ideal é uma fundação'', explica Aragão, acrescentando que a equipe que discute a criação da entidade pretende apresentar projetos para a captação de recursos junto aos governos federal e estadual para a ampliação da uma estrutura física, que funciona como casa, ateliê e galeria de Aragão: a Casa das Artes, na área central de Ibiporã.
O artista plástico ressalta que o acervo precisa ser catalogado e registrado em cartório para garantir que permaneça sempre na fundação. Aragão comenta ainda que o projeto está partindo da estaca zero, mas que já ambiciona propostas de trabalho com alunos de escolas públicas municipais e estaduais.
''Vamos pegar o pessoal da periferia e trazer para a fundação num processo de inclusão social, apresentando o espaço, dizendo às pessoas: 'Olha, tudo isso aqui é seu. Será uma maneira de incluirmos as pessoas no processo. A Fundação Henrique Aragão não vai cobrar nenhum ingresso para as atividades oferecidas às crianças, mas pensará com a sociedade e os governos uma maneira de proporcionar cursos para elas'', complementa o artista plástico.

mockup