Considerado um dos artistas plásticos mais cotados do século XX, Fernando Botero completa hoje 74 anos de uma vida repleta de obras que se destacam por todo o mundo. As mais recentes, retratam o sofrimento do povo colombiano com as guerrilhas e o narcotráfico e denunciam as torturas perpetradas pelos soldados norte-americanos no cárcere iraquiano de Abu Ghraib.
  Nascido em Medellín, na Colômbia, no dia 19 de abril de 1932, Botero ficou conhecido por pintar e esculpir ‘gordinhos’. Mas não fale isso na terra dele porque lá dizem que o artista ‘‘dá volume às formas’’. Em várias cidades do país vizinho há obras de Botero espalhadas pelas ruas e museus.
  O maior acervo encontra-se na cidade natal, mas em Bogota o ‘Donación Botero’ reúne mais de 100 obras do próprio autor concebidas nos anos 80 e 90 e a sua quase infinita coleção particular, doada pelo autor para o governo colombiano. Tudo está instalado na Casa da Moeda/Banco da República, no bairro da Candelária.
  Chagall, Picasso, Corot, Toulouse-Lautrec, Giacometti, Francis Bacon, Salvador Dalí...: a lista é tão extensa quanto impressionante, impressionista, surrealista, expressionista, moderna e até cubista. Reunindo a última fase de Botero e a coleção que ele soube e pode amealhar, o conjunto, literalmente, não tem preço.
  Filho de um caixeiro-viajante, estudioso da arte pré-colombiana, dos muralistas mexicanos e da pintura acadêmica de seu país dos séculos 18 e 19, Botero mudou-se para Bogotá em 1951 e realizou sua primeira mostra internacional no Leo Matiz Gal.
  Partindo para Madrid em 1952, estudou na Academia de San Fernando. De 1953 a 1955, aprendeu a técnica de afrescos e história da arte na Academia de San Marco, em Florença. Ali teve contato com obras de mestres italianos como Paolo Ucello e Piero della Francesca, que têm influenciado suas pinturas, desde então.
  Nos anos 1950 e 1960, o artista pintou quadros com traços enigmáticos, tons expressionistas e fantasmagóricos. Embora o expressionismo abstrato lhe interessasse, buscou inspiração no renascentismo italiano. Durante este período, começou a experimentar a criação do volume em suas pinturas, expandindo as figuras e comprimindo o espaço em torno delas, uma qualidade que continua explorando ao pintar retratos de grupos imaginários ou paródias sobre o trabalho de mestres famosos.
  Os críticos mais ácidos torcem o nariz e chamam as obras de ‘‘gordas’’ com certo preconceito. Mas, nas obras satíricas de Fernando Botero, políticos, militares, religiosos, músicos e a realeza, são retratados como figuras rotundas e sem movimento, assumindo a característica de vida humana estática. De natureza humorística à primeira vista, as pinturas de Botero são geralmente um comentário social com toques políticos.
  Foram esses últimos trabalhos festejados do pintor colombiano que galgaram sua obra a um status de quase unanimidade internacional, e hoje estão cotados entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão. Em 1998, quando expôs no Museu de Arte de São Paulo (Masp) 82 obras produzidas entre 1947 e 1997, a mostra foi vista por 121.611 pessoas, perdendo então apenas para Salvador Dalí, vista por 132.894 espectadores.
  Nas últimas obras expostas, sobre a guerra no Iraque, são retratadas a cólera, a indignação, a força, e ao mesmo tempo a raiva do artista. ‘‘Não, não é arte política. É contra a falta de humanidade’’, declarou à Agência France Presse o artista, que, com sua determinção provocada pela ‘‘raiva’’, como admitiu, foi comparado com um dos maiores artistas contemporâneos, Pablo Picasso.
  ‘‘Segue o exemplo ilustre da Guernica, obra-mestra de Picasso feita em 1937, para estigmatizar os bombardeios dos alemães que arrasaram a cidade basca’’, escreveu o crítico de arte Constanzo Costantini no jornal italiano ‘‘Il Messaggero’’.
  Com um grande número de exposições na Europa e nas Américas do Norte e do Sul, Botero recebeu inúmeros prêmios, inclusive o Primeiro Intercol, no Museu de Arte Moderna de Bogotá, e figura no acervo dos principais museus em todo o mundo. Desde o início da década de 1970, Botero divide seu tempo entre Paris, Madrid e Medellín.
O jornalista viajou a convite do Escritório Comercial da Colômbia em São Paulo (Proexport)

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