Restos de uma sacola feita com tramas de nylon, latinhas amassadas de refrigerante, fragmentos de metal desprezados em um caçambas de lixo ou até mesmo no lixão municipal viram arte nas mãos da artista plástica Dolores Branco. Na exposição ''Incoerência/Coerente'', que segue até o dia 17 de janeiro no Espaço Cultural Infraero, Dolores mostra o potencial destes materiais que se transformam em 11 belas gravuras em metal. Uma monotipia da artista, resultado de uma releitura de uma tela do Picasso para uma exposição paralela organizada pelo Museu de Arte do Paraná, em 1994, em Curitiba, também poderá ser conferida. Com a participação de 51 artistas paranaenses, o evento realizado paralelamente à exposição de Picasso teve como objetivo a releitura da tela ''Minotaure, Buveur et Femmes'', do pintor, realizada em 1933.
De forma não intencional, a artista concorda que acabou fazendo um trabalho ecológico ao aproveitar materiais recicláveis. Em um banner na exposição, uma citação de Dolores também dá o tom da mostra: ''Em todo caos implica a coerência da ordem cósmica'''. ''A minha linguagem é bem comtemporânea e gosto de usar vários materiais no meu trabalho de pesquisa. O meu ateliê é um grande laboratório e depois de 'garimpar' nos lixos, disponho os materiais no chão. No começo, não tenho a mínima idéia do que vai surgir. O bom do trabalho artístico é o descobrimento, o romper de limites'', destacou.
Espiritualista, Dolores comentou que seu trabalho artístico busca um diálogo para expressar a sincronicidade presente na vida humana, discordando da idéia do senso comum do acaso. ''Somos uma 'metamorfose ambulante', parafraseando Raul Seixas, e o artista está sempre atento para o que passa despercebido para a maioria das pessoas. E tudo pode ser motivo de inspiração. Tanto a beleza e a alegria quanto a tristeza. Vemos o lirismo que há em tudo'', acrescentou.
Monotipia é uma técnica das artes gráficas em que a imagem é feita com pincel sobre uma superfície rígida (de mármore, vidro ou fórmica) e onde o papel será sobreposto posteriormente. Já a gravura em metal é uma técnica que utiliza como matriz chapas metálicas (cobre, zinco ou alumínio). Entre as várias técnicas, sobressaem-se a água-forte e água-tinta. Na primeira, enverniza-se a chapa e, depois de seca, risca-se com uma ponta-seca deixando aparecer o metal, em seguinda, colocando-a num recipiente com ácido. O ácido penetra nos sulcos onde será recebida a tinta que passada pela prensa transfere a imagem para o papel previamente molhado. Na água-tinta, cobre-se a superfície da chapa metálica com o pó de uma resina (breu) que quando esquentada forma uma camada esponjosa. O ácido penetra pelos pequenos orifícios indo gravar a chapa que foi tratada com cobertura de verniz. Em alguns trabalhos, Dolores Branco também utiliza a técnica de assemblage: os objetos são sobrepostos sobre um papel grosso antes de passarem por uma prensa, que deixará no papel as impressões em alto relevo das peças.

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