VISUAIS - Arte tocada pela dor
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de março de 2004
Candice Dequech<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Em memória aos desaparecidos durante o período da ditadura militar, cujo golpe de Estado completa 40 anos na próxima quarta-feira, o Museu Oscar Niemeyer (MON) recebe uma exposição do artista plástico José Rufino, de João Pessoa, Paraíba, que conta com instalações, desenhos, monotipias e gravuras, entre diversas cartas de presos políticos desaparecidos que serviram de matéria-prima para suas obras. De acordo com Rufino, nelas estão impregnadas sensações de ausência e de perda, de frustração e de raiva, revelando o desconserto diante de uma situação que se desprende aos poucos de toda razão de origem.
Em outra instalação, chamada ''Plasmatio'', Rufino remete o observador a Cristo na cruz e ao Santo Sudário, ao criar a imagem de um corpo impresso, que não existe, no estrado de uma cama. A figura é composta pelo uso de manchas simétricas. Formando a base do T da cruz e sobre aquela imagem repousam uma cadeira no sentido inverso e uma mala antiga. Segundo o artista, a mala seria uma lembrança da intitulada ''mala do doutor Wolts'', objeto utilizado para carregar os equipamentos de choque e que deu origem à denominação dada pelas vítimas das torturas. ''A idéia foi mostrar o corpo desaparecido e não personificado, pois refere-se aos inúmeros corpos desaparecidos, e não um em especial. É sutil e abrangente'', explica.
Outra instalação exibe diversas malas de viagem com bolhas brancas. ''Trata-se de um conceito espiritual. As bolhas simbolizam o conteúdo que está vazando. É como se as bolhas estivessem se desprendendo. Simboliza a partida dos exilados e daqueles que não mais voltaram'', explica.
São, ao todo, cerca de 100 obras em papel distribuídas em quatro instalações, onde é impossível negar a influência recebida dos anos sombrios, cercados de mistério e dor. Na obra ''Lacrymatio'', por exemplo, cartas familiares enfileiradas descem em cabos desembocando em uma única cadeira no fundo da sala. Segundo Rufino, é uma clara referência às cadeiras elétricas.
Para o artista, a intenção da exposição, que faz parte do estilo próprio adotado por ele, foi materializar plasticamente a saudade alheia. ''Me apropriei da saudade que os parentes e os amigos dos desaparecidos políticos sentem, tomando objetos, cenas e documentos da ditadura como matéria-prima'', explica o artista. Rufino ressalta que a exposição não é uma homenagem aos desaparecidos e sim um memorial à saudade coletiva dos desaparecidos.
Rufino é filho de preso político e absorveu muito a história e o sofrimento da família, que, segundo ele, sempre foi muito saudosista. Embora jovem, o inconsciente coletivo dos ''anos de chumbo'' lhe foi repassado com muita precisão. Seu pai era senhor de engenho no sertão nordestino. Durante a luta ideológica conheceu a mãe do artista, Marlene Almeida, e juntos militaram no Partido Comunista.
De acordo com Rufino, a exposição foi bastante aclamada pela crítica de São Paulo, durante a Bienal de 2002, para a qual foi construída a instalação com as cartas dos desaparecidos.
Serviço:
- A exposição fica aberta até o dia 30 de maio. O Museu Oscar Niemeyer (MON) fica na rua Marechal Hermes, 999, no bairro Centro Cívico. O ingresso custa R$ 4 para adultos e R$ 2 para estudantes. Crianças de até dez anos e maiores de 60 anos não pagam. Visitas de grupos de estudantes pré-agendadas também não serão cobradas. O pré-agendamento poderá ser feito através do e-mail [email protected]. O horário de funcionamento é das 10 as 20 horas, de terça-feira a domingo.


