Duas irmãs apaixonadas por arte deixaram no Brasil coleções que podem figurar em qualquer acervo do mundo como uma boa fatia do que se produziu ao longo dos séculos em quatro continentes. Eva e Ema Klabin guardaram em suas próprias casas, no decorrer da vida, telas, esculturas, desenhos, porcelanas, pratarias e móveis que só agora chegaram ao conhecimento do grande público através da mostra ''Universos Sensíveis'' que reúne 400 peças e fica aberta até o dia 9 na Pinacoteca do Estado de São Paulo, devendo seguir em junho para o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
As colecionadoras eram filhas de Hessel Klabin, imigrante lituano e um dos fundadores da indústria de papel e celulose que está completando 105 no Brasil. Além do mesmo sobrenome, elas tinham em comum o gosto pela arte e no período pós-guerra incorporaram o hábito de colecionar obras valiosas, a exemplo de outras figuras marcantes da burguesia brasileira.
A antiga casa de Eva Klabin (1903 - 1991) na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, foi transformada, em 1995, numa fundação que leva seu nome e atrai visitantes que querem ver de perto as cerca de 1.100 peças que se desdobram em objetos arqueológicos, telas renascentistas, flamengas e uma rara coleção de retratos ingleses. A casa de Ema Klabin (1907 - 1994), na rua Portugal, no Jardim Europa em São Paulo, também será transformada em fundação até o final do ano, abrindo para o público uma coleção de 1.515 itens entre obras de arte africanas, pré-colombianas, asiáticas e pintura moderna de artistas brasileiros e de outros países.
Este ano, para comemorar os 105 anos da indústria Klabin, parcelas destes dois acervos foram reunidas numa única exposição. Para interagir com este universo, os curadores Paulo de Freitas Costa e Márcio Doctors buscaram caminhos poéticos que conduzem os visitantes ao reconhecimento da importância da mostra. A primeira sala, no início da exposição, abriga um conjunto de obras de várias épocas, estilos e países: sopeiras inglesas, esculturas medievais francesas e objetos arqueológicos juntam-se no mesmo ''caldo'' demonstrando que a preferência das irmãs recaia sobre peças consagradas pelo gosto dos colecionadores do século 19, com seu fino faro para relíquias do Egito e da China, enveredando pela arte européia de vários períodos, com destaque para as obras renascentistas.
As irmãs Klabin viveram o sonho dourado dos milionários das primeiras décadas do século 20: levar para a sala de jantar obras atribuídas a mestres como Boticelli e Tintoretto. Viajando pelo mundo, elas frequentaram o grupo seleto de colecionadores que fizeram os leiloeiros bater martelos na famosa galeria Sotheby's, em Londres, arrematando obras de artistas de primeira grandeza como Soutine e Renoir. No acervo de Eva chama a atenção a coleção de Madonas da Renascença italiana. Casada durante anos com o advogado Paulo Rapaport, ela não teve filhos, o que talvez explique seu gosto pela figura maternal com o Menino Jesus no colo. Nesta coleção, destaca-se a ''Madona do Menino Travesso'', uma escultura italiana do século XVI que mostra o pequeno Jesus beliscando o seio da mãe.
O curador Márcio Doctors tematiza o acervo de Eva Klabin dividindo-o em três grandes núcleos: o da arte arqueológica, com preponderância da arte egípcia e greco-latina, o das Madonnas renascentistas e o dos retratos holandeses e ingleses dos séculos 17 e 18. Ao final da exposição, um grande espelho funciona como um elemento que reflete o sentido multiplicador de uma coleção e um relógio, cujos ponteiros andam para trás, refere-se aos hábitos de Eva Klabin que gostava de trocar o dia pela noite. Dizem que na sua casa, o almoço era às 5 da tarde. Notívaga, ela oferecia jantares que varavam a madrugada, frequentados por figuras como o presidente Juscelino Kubitscheck e o banqueiro David Rockefeller.
Responsável pela curadoria do acervo de Ema Klabin, Paulo de Freitas da Costa levou para a exposição uma parte da coleção que ele divide em quatro movimentos, como uma sinfonia. O primeiro movimento, que ele conceitua como imponente e solene, reúne grandes mestres da pintura européia e uma coleção de livros raros. O segundo traz obras do Brasil imperial e colonial, com destaque para a pintura ''Vista de Olinda'', de 1650, do holandês Frans Post que retratou de modo original cenas e costumes brasileiros. Trata-se de uma das poucas telas do pintor no País. O terceiro movimento é mais ousado, enveredando pela arte moderna brasileira e européia, com ajuste perfeito para a importância de pintores geniais como Chagall. No quarto movimento afloram as raízes nacionais. As irmãs Klabin eram primas da mulher de Lasar Segall, o que justifica a forte presença de obras do artista no acervo de Ema, que também reúne telas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari e esculturas de Brecheret o que não deixa de representar um viés inusitado de modernidade em meio a uma coleção em que predomina a arte clássica.
A mostra ''Universos Sensíveis'' reúne obras que atravessam 30 séculos de arte. Mais do que um biscoito fino, trata-se de uma caixa de sofisticados bombons arrematada pelos laços e as afinidades das duas irmãs que viajaram pelo mundo alimentando o hábito de colecionar raridades a partir de um olhar europeu. Um olhar refinado sem dúvida, ao qual não escaparam o valor inestimável de obras de Rembrandt, Greuze ou Bruegel. Para os sensíveis à arte tupiniquim só falta mesmo um toque mais afeiçoado à produção verde-amarela.

A jornalista viajou a São Paulo a convite dos organizadores do evento.


Serviço:
A exposição Universos Sensíveis fica até 9 de maio na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Praça da Luz, 2 (próximo ao metrô da Luz). Aberta ao público de treça a domingo, das 10 às 17h30 (grátis aos sábados). Estacionamento gratuito no local. Em junho, a mostra segue para o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

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