VISUAIS - Arte para elevar o espírito
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de janeiro de 2007
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Sofrimento, iluminação, ressurreição. Cada obra do artista Marcelio Soares é um chamado à evangelização. Ex-seminarista, o pintor consagrado internacionalmente leva um pouco da sua arte gratuitamente para igrejas de todo o Brasil. A última a receber um pouco do dom do artista foi a Paróquia São José, no balneário Shangri-lá, em Matinhos (litoral paranaense). Foram dois meses de intenso trabalho. Soares levantava às 3 horas e parava o trabalho diariamente às 18 horas. Tudo de forma regrada e planejada.
O empenho do artista foi recompensado ao terminar o painel com 80 metros quadrados e que retrata Jesus Cristo ressurgido dos mortos numa realidade local. Ou seja, com fundo mostrando as belezas do litoral paranaense. Ao lado de Jesus, seis anjos. Cada um deles representando um ato litúrgico. Entre eles, chama a atenção a presença do anjo negro - marca de todos os painéis do pintor de artes sacras. ''Sempre faço um dos anjos negro para discutir o preconceito dentro da própria Igreja. Temos que romper esses preconceitos. E a barreira tem que ser quebrada nos painéis, que ajudam a elevar o espírito dos fiéis'', diz.
São seis anjos. Cada um usa a manta de uma coloração. A verde simboliza o tempo comum, Cristo se manifestando entre os homens. O amarelo ou dourado, as festas e as solenidades litúrgicas, o tempo forte. O branco simboliza a pureza de Maria, mãe de Jesus. O rosáceo, o advento do Natal - a preparação para a vinda de Cristo. O roxo significa a quaresma, o tempo de persistência e conversão. O vermelho simboliza o sangue dos mártires e o fogo do Espírito Santo que rege toda a Igreja. No peito de Jesus, um coração aberto lembrando que os fiéis são mansos e humildes de coração.
Em cada local que vai, Soares deixa uma marca. As obras pintadas por ele se movimentam. Em Shangri-lá, por exemplo, Jesus Cristo olha diretamente para os fiés e se movimenta na direção deles. Se estiver no centro da Igreja, Cristo aparece como de braços abertos para receber o fiel. Se estiver à esquerda ou à direito do palco, Cristo se movimenta para o mesmo lado. ''Outro dia, uma mulher chorou quando percebeu que Jesus se movimentava para ela. Começou a soluçar de emoção. Isso para mim é inexplicável. A vivacidade é emocionante e eu me realizo assim. Com a minha pintura, posso tocar as pessoas e, dessa forma, engrandeço a fé de cada uma delas'', destacou.
Para o painel, Soares contou com 650 tubos de tinta e três auxiliares de pintura. O custo para a Igreja foi de R$ 350 (apenas o valor do material usado). Até hoje, o artista criou 36 painéis e obras sacras em igrejas brasileiras. Na Europa, fez várias restaurações. Soares conta que começou a pintar aos quatro anos. Fazia pinturas leves, no início. Em 1984, quando fazia seminário, começou a estudar e a pintar quadros. Se formou em Belas Artes e fez 176 cursos de aperfeiçoamento no Brasil e na Itália. A religiosidade e a fé do artista foram marcadas há anos, quando ele começou a pintar um painel de uma igreja em Santa Terezinha de Itaipu.
Naquela ocasião, Soares conta que teve que ingerir um remédio do qual era alérgico e desenvolveu a chamada Síndrome de Stive Johnsson. A pele começou a cair como se estivesse queimada. ''A cada mil pessoas que tem a doença, uma apenas sobrevive. A maior parte morre porque fica completamente aberta para infecções. Eu estava pintando a Igreja e não podia parar. Continuei o painel todo enfaixado. Amarrava os pincéis para poder desenhar. Fiz a promessa que se eu sobrevivesse, nunca mais cobraria para fazer esse tipo de pintura. Hoje vou onde me chamam, dando preferência para as igrejas mais carentes. Meu objetivo é evangelizar através da arte''.
Soares deixou Shangri-lá, mas volta em novembro para pintar os vitrais e as vias sacras nas laterais. Depois de terminado o trabalho, Soares irá fazer as fotos do local para incluir a igreja na Rota Internacional do Turismo Sacro. As telas de Soares já renderam a ele seis prêmios internacionais, duas menções honrosas e 72 prêmios nacionais. Hoje, ele vive das telas que pinta e expõe nos mais diferentes países. Atualmente, a exposição Burguesia, com nove telas, passou por Vienna, Bratislava, Praga, Madri, Londres, Belo Horizonte, Santa Terezinha de Itaipu, Maringá e São Paulo. Em fevereiro, será definida nova agenda nacional e internacional.
Em Londres, Soares vendeu 22 obras de arte para a rainha Elizabeth. As telas estão expostas dentro do Palácio Buckinghan. No Brasil, apenas três artistas são reconhecidos como especialistas em arte sacra. Os outros dois, trabalham basicamente com restaurações. Com 42 anos, Soares coleciona vídeos e fotografias sobre as obras e os painéis pintados. O maior deles foi o Nascimento de Jesus, em Nova Andradina (MS), com 800x1400 metros.
Soares está agora em Curitiba, onde pretende fazer o primeiro painel religioso para a cidade. Em estado de concentração há 15 dias, ele conta que cada pincelada já está pronta na sua cabeça. Reza para que o Espírito Santo o ilumine e que a obra revele a imagem de Deus. A obra será feita na Capela Santa Luzia, no Parque Barigui.


