Foi-se o tempo em que os grafiteiros largavam o desenho pela metade para correr de camburões. Hoje, a arte registrada em muros já não é tão perseguida como há dez ou quinze anos. ''Já fui abordado por policiais, mas não tive problemas porque expliquei a eles que aquilo era uma expressão artística e não pichação ou propaganda'' diz Tadeu Júnior, o ''Carão'', morador da Região Norte.
Ele faz parte da nova geração de grafiteiros de Londrina. É autor da maioria das figuras que colorem paredes na região central da cidade. Seus trabalhos estão estampados em locais variados, como a rampa da Praça Marechal Floriano Peixoto, os banheiros do Calçadão, o Bosque, o Zerão, o Diretório Central dos Estudantes da UEL e em alguns viadutos e pontilhões.
''Procuro os espaços públicos. Muros privados só com a autorização do dono'' salienta ele. Carão integra a Cap Style Graffiti, turma (crew) de grafiteiros formada ainda por Chorão, Hugo e Duel. Em dezembro passado, eles organizaram um encontro nacional de grafite em parceria com a Escola de Circo de Londrina e que contou com a participação de artistas de São Paulo e Curitiba.
Agora, planejam um segundo encontro para novembro, ampliado e com mais convidados, desta vez com ajuda de patrocinadores. Além de eventos anuais de grande porte, o grupo desenvolve atividades menores periódicas, como a realização de oficinas. ''Já ministramos uma oficina em Foz do Iguaçu, além de várias por aqui, entre elas uma para menores infratores na Epesmel (Escola Profissional e Social do Menor em Londrina)'' conta ele.
Um outro componente da turma, Hugo, é dos oficineiros de grafite vinculados ao programa Rede da Cidadania da Secretaria Municipal de Cultura. Ele está há três anos à frente do projeto. Carão ressalta que a arte feita com tinta spray é uma espécie de vício do bem. ''É a arte mais antiga que existe, mais antiga que a pintura em tela. O homem das cavernas já desenhava nas paredes. Quem faz grafite não pensa em outra coisa. Deixa de se ligar em drogas e crimes. Já ganhei 50 reais e deixei a grana toda no muro, gastando com as latinhas'' lembra.
Ele não nega o passado condenável de pichador, que deixou para trás depois de descobrir a sofisticação visual a que poderia chegar com as tintas coloridas. Na época, não tinha nenhuma referência, ninguém para orientá-lo nesta arte que nasce para ser desfeita. O impulso veio após folhear revistas especializadas. Foi quando o amigo e hoje também grafiteiro Chorão liberou o muro de sua casa. Daí não pararam mais.
Apesar da paixão devotada à atividade, o artista não vê perspectiva profissional em Londrina. ''O grafite é um hobby, um hobby que levo muito a sério, mas um hobby'' diz. ''Aqui é bem diferente de capitais como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde a galera vive do grafite trabalhando para a Rede Globo, Coca-Cola, McDonald's, Motorola e outras multinacionais. Em Londrina, ainda existe preconceito. As pessoas vêem a gente de bermuda e calça larga pintando um muro e acham que somos maloqueiros. Chegam a tirar seus carros de perto. Depois, quando a arte está pronta, eles falam: 'Que legal, meu filho quer aprender!''.
Carão, que tem 23 anos, ganha a vida como tatuador. Embora utilize o desenho nas duas atividades, ele vê muitas diferenças entre uma e outra. ''O grafite é uma criação livre. Você chega ali na hora e não tem muita linha a seguir. Mas para fazer uma tattoo, você tem que se submeter ao pedido do cliente, além de ter todo o cuidado com a pele da pessoa. A técnica é totalmente diferente'' explica.
Usando a cidade como suporte para criação gráfica, ele faz questão de observar que suas incursões pelas paredes exigem pesquisa. Mesmo sabendo que obra de grafiteiro dura só até a próxima mão de tinta, assinala que é preciso estudar muito para fazer um trabalho de qualidade. ''Não é só pegar o spray e pintar. Tem que conhecer a evolução das técnicas'' avisa.
Na próxima sexta-feira, ele e mais uma turma de grafiteiros estarão em ação na sede do DCE do campus da UEL, que fica próxima ao Centro de Tecnologia e Urbanismo (CTU).

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