VISUAIS - Arte em duas fronteiras
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A arte nipo-brasileira já revelou nomes importantes como Manabu Mabe e Tomie Othake. Agora, uma pesquisa levada a cabo no Paraná traz à luz gerações de artistas plásticos nikkeis ainda desconhecidos nos grandes centros, mas de reconhecido talento.
Yoneji Matsune, Fernando Ikoma, Massayuki Seko, Massaharu Fukushima, Yoshia Nakagawara, Alice Yamamura, Sandra Hiromoto e Julia Ishida são alguns dos descendentes de japoneses cujas obras e trajetórias são destacadas no livro ''Wakane A Arte Visual Nipo-Brasileira no Paraná'', de autoria de Rosemeire Odahara Graça.
O livro de 96 páginas abrange desde os primeiros imigrantes até a safra recente de nisseis e mestiços. ''Não tive a preocupação de fazer uma história definitiva da produção visual desses artistas, mas apenas uma compilação dos nomes mais representativos, aliada aos momentos mais significativos das artes no Paraná'' explica Rosemeire, que é professora de História da Arte.
O mapeamento contou com a coordenação geral de Marcos Katusji Kimura e patrocínio da empresa Siemens. O projeto foi iniciado há 1 ano e meio, embora o assunto tenha perseguido a autora durante 5 anos. ''Conseguimos catalogar 150 nomes em todo o Estado, mas optamos por centralizar o levantamento em Curitiba, Londrina e Maringá dada a dificuldade para entrar em contato com artistas isolados em outras cidades do interior'' diz.
Ela lembra que muitos deles não tinham qualquer registro de endereço nas instituições de preservação de memória artística. Um outro motivo foi que alguns incursionaram pelo universo da arte em determinados momentos de suas vidas para depois abandonarem as tintas e pincéis. Rosemeire abre o volume mostrando que a integração dos nikkeis à cultura local foi lenta, tomando impulso somente na década de 50, quando muitos deles passaram a exercer outras atividades profissionais além da agrícola.
O primeiro artista focalizado é Tadashi Yamawaki, um aventureiro filho de uma rica e tradicional família do Japão que estudou pintura na Inglaterra antes de embarcar clandestinamente para a América do Sul. Yamawaki chegou ao Brasil em 1911, ficou alguns anos em Mato Grosso e São Paulo até se fixar em Curitiba em 1919. Trabalhou como pintor decorativo, fazendo afrescos e frisos para mansões.
Rosemeire resgata trajetórias, mas também comenta poéticas dos artistas elencados. ''Yamawaki tinha uma forte influência da escola italiana clássica de pintura'' anota num trecho do livro. A década de 60 é assinalada como um período de grande atuação de artistas nikkeis paranaenses. Essa geração ''era composta por desenhistas precisos, com grande domínio de técnicas de representação e composição'' diz ela, destacando o maringaense Massayuki Seko e os irmãos curitibanos Eurico e Fernando Ikoma.
Na passagem para os anos 70, boa parte das obras criadas pelo segmento envereda pelo abstracionismo-lírico, tendo à frente nomes como Cláudio Seto e Massaharu Fukushima. A fase é marcada também pelo surgimento de mulheres no circuito das artes, como Maria Fusako Tomimatsu, criadora de obras diminutas e delicadas. Foi na década de 80, porém, que a produção visual nikkei intensificou-se contribuindo para o desenvolvimento do ambiente artístico local.
Muitos pintores nihonjin (pessoa nascida no Japão) se tornam conhecidos do grande público neste período graças a uma série de mostras coletivas organizadas em Curitiba, Londrina e Maringá em comemoração aos 80 anos de imigração japonesa. Rosemeire observa que os talentos surgidos nesta época são profissionais aplicados e compulsivos. ''A obra plástica de artistas como Tadashi Ikoma, Minoru Nakagawara e Masami Koga durante seus poucos anos de produção supera em quantidade muitos artistas que levam a vida toda criando'' escreve.
Foi ainda nos anos 80 que despontaram nomes como Yoshiya Nakagawara, Tânia Machado, Carlos Vinícius Ferreira Sato, Alice Hayama e uma turma independente lançada posteriormente por meio de salões oficiais, galerias particulares e exposições em salas alternativas de museus. Dessa leva, a autora ressalta os percursos de Miti Tsuneta, Rosa Youko Kanematsu e particularmente Chekuko Fujita Hokama (''a mais importante artista conceitual nikkei do Paraná'') e Alice Yamamura (''a artista nikkei paranaense mais premiada e de maior destaque nacional'').
A nova geração, surgida entre a década de 90 e o novo milênio, comparece no livro representada por diversos nomes. A autora identifica três grupos de artistas emergentes em Curitiba (um oriundo de faculdades públicas de arte e dois formados em ateliês particulares) onde sobressaem nomes como Sandra Hiromoto, Celso Setoguette e Fabricio Tanamati. Ela lembra ainda de londrinenses como Érica Kaminishi e maringaenses como Ademir Kimura.
O último capítulo do volume é dedicado aos artistas que atuam em linguagens visuais como quadrinhos e ilustração. O desenhista curitibano Tako X e o chargista da Folha de Londrina, Ivo Akio, são alguns dos talentos focalizados. Fartamente ilustrado, o livro foi lançado no começo do mês com abertura de uma exposição em Curitiba. Agora, a autora pretende repetir o evento em Londrina e Maringá.
Serviço:
Livro ''Wakane A Arte Visual Nipo-Brasileira no Paraná''. Autor: Rosemeire Odahara Graça. Contatos: tel. (41) 323-5315 e e-mail: [email protected].


