VISUAIS - Arte do inconsciente
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Há três anos, a médica psiquiátrica Nise da Silveira inspirou o diretor paulista Luiz Valcazaras a dirigir o espetáculo ''Anjo Duro'', premiado monólogo com Berta Zemel no elenco. Agora a médica volta a ser homenageada numa exposição contendo quase duzentas obras do Museu do Inconsciente, instituição carioca criada por ela em 1956. Se estivesse viva, a médica alagoana completaria 100 anos este ano. Nise morreu em 1999. A mostra inédita que marca o centenário do seu nascimento abre hoje no Museu Oscar Niemeyer em Curitiba. As 184 obras, entre desenhos, esculturas, fotografias e pinturas, que integram a exposição, fazem parte do acervo do Museu do Inconsciente que reúne, ao todo, mais de 350 mil trabalhos, metade deles tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
As obras que compõem a mostra inédita foram selecionadas pelo diretor da instituição, Luiz Carlos Mello. Ele foi colaborador da médica por 27 anos e há três décadas trabalha no museu. A mostra ''O Mundo das Imagens do Inconsciente'', que ele traz à Curitiba é formada por obras de oito artistas. ''Para selecioná-las parti do ponto de vista artístico'', revela.
Mello ressalta que existem dois tipos de análise sobre o acervo do Museu do Inconsciente. ''As obras podem ser vistas do ponto de vista artístico ou científico'', conta. Isso porque os autores das obras são portadores de doenças mentais, tratados pelo metódo desenvolvido por Nise. Contrária aos tratamentos psiquiátricos utilizados na época, como os eletrochoques e a lobotomia, a médica viu na pintura, modelagem e outros técnicas artísticas uma alternativa importante para o tratamento de doentes mentais. Ela considerava que o conjunto da obra de um paciente pode ser analisado cientificamente e auxiliar no tratamento.
''É verdade que teve uma época que essas obras não eram consideradas obras de arte, mas isso se diluiu principalmente depois da mostra 500 +'', lembra o curador da exposição. Para representar o vasto acervo do Museu do Inconsciente, Mello escolheu oito autores: Emygdio de Barros, autor de aquarelas, guaches e óleo; Carlos Pertuis com a série ''O Circo'' ; Adelina Gomes, com suas esculturas e obras de papel e Raphael Domingues com suas pinturas e desenhos e Fernando Diniz em composições com palavras, imagens corporais e geométricas. Todos já consagrados pela crítica especializada em artes plásticas.
Outros três autores menos conhecidos, mas também com trabalhos importantes, integram a mostra: Geraldo Aragão, com uma série de fotografias em preto e branco; o escultor Abelardo Corrêa e Arthur Amora, cujas obras são inspiradas no jogo de dominós. Todos artistas eram esquizofrênicos e frequentavam os ateliês da Seção de Terapêutica Ocupacional, criado pela psiquiatra em 1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II, com sede no Rio de Janeiro. O Centro hoje é denominado Instituto Municipal Nise da Silveira, em homenagem à médica que revolucionou o tratamento de doentes mentais com a implantação de atividades nos ateliês.
Além das 184 obras, a exposição também apresenta um documentário sobre a médica dirigido por Daniela Thomas e 11 painéis fotográficos com a história do trabalho de Nise.
A médica nasceu em 1905, em Maceió, Alagoas. Formada pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, ela dedicou-se à psiquiatria e sempre foi contrária às formas agressivas de tratamento da época, como a internação, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia. Nise chegou a ser afastada do Serviço Público por quase dez anos, entre as décadas de 30 e 40, acusada de comunismo. Em 1946, já anistiada, criou a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.
Seis anos mais tarde, em 1952, fundou o Museu de Imagem do Inconsciente, um centro de estudo e de pesquisa que reúne obras produzidas nos ateliês de pintura e modelagem, e introduziu a psicologia junguiana no Brasil. A médica morreu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. A mostra que homeageia o seu trabalho permanece em cartaz até 22 de maio e em setembro segue para Museu de Arte Bruta, em Paris.
Serviço:
- Mostra ''O Mundo das Imagens do Inconsciente''. Abertura dia 22, terça-feira no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999). Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00. Informações pelo telefone (41) 350-4400


