VISUAIS - A natureza em boas mãos
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sexta-feira, 10 de outubro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Cinquenta anos depois de conhecer - e morar - no Paraná, o escultor Frans Krajcberg, de 82 anos, volta ao Estado para deixar um importante legado. Ele acaba de doar para a Prefeitura de Curitiba mais de cem obras de sua autoria que vão integrar o Espaço Cultural Frans Krajcberg. Instalado no Jardim Botânico, um dos cartões postais da Capital, o espaço será inaugurado hoje, com direito à presença do escultor. Polonês naturalizado brasileiro, Krajcberg não entende porque as pessoas ainda se referem a ele como estrangeiro. ''Na Bahia, aonde moro, sou sempre polonês, mesmo morando há mais de cinco décadas no Brasil, mas quando venho para o Sul me sinto mais brasileiro'', revela.
Ele chegou ao País no final da década de 40 e no início dos anos 50 teve a sua primeira experiência no Paraná, quando trabalhou como desenhista da empresa Klabin na Fazenda Monte Alegre, em Telêmaco Borba (128 km ao norte de Ponta Grossa). Nessa época ele começou a encontrar na natureza, matéria-prima para as suas obras. ''Eu nunca me adaptei aos homems e senti que somente perto da natureza eu poderia viver com alegria. A floresta nunca me perguntou de onde eu vim'', diz.
Depois de viver por quatro anos e meio no interior do Estado, o escultor decidiu deixar o Paraná por não suportar ver as árvores sendo queimadas para dar lugar à cafeicultura. ''Era uma violência muito grande'', conta. Por isso decidiu partir e encontrou no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paris novos pontos de parada antes de se instalar definitivamente em Nova Viçosa, interior da Bahia. Lá construiu uma casa sobre as árvores (''Aonde mais poderia viver Tarzan?'', brinca) e montou seu ateliê aonde produz esculturas tendo como ponto de partida material retirado da natureza.
Parte dessas obras pôde ser vista pelos curitibanos há sete anos, na mostra ''A Revolta'' que o artista expôs também no Jardim Botânico. Na época, a exposição recebeu cerca de 800 mil visitantes. O espaço que recebeu a mostra foi reformulado para abrigar o novo Espaço Cultural, o primeiro de três espaços que vão abrigar obras do escultor.
Ainda este ano, a Prefeitura de Paris, na França, deve inaugurar um museu instalado no antigo ateliê de Krajcberg na cidade, também com obras inéditas do artista. Paralelo ao projeto, o escultor está investindo recursos próprios para construir o Museu Frans Krajcberg em Nova Viçosa. As obras já começaram. ''Tive que vender algumas esculturas para construir o museu. Não recebi ajuda de ninguém'', lamenta.
Krajcberg chegou a pedir apoio para o ministro da Cultura Gilberto Gil, mas não obteve retorno. O ex-ministro da Cultura de Paris Jack Lang também enviou uma correspondência ao ministro brasileiro solicitando apoio para um dos mais importantes artistas vivos do mundo, mas Gil também não respondeu. ''Ele (Gil) não tem tempo para a cultura, só tem tempo para cantar'', alfineta o escultor.
O artista lamenta receber tão pouco apoio do País que escolheu para morar. ''É muito difícil trabalhar aqui sem estímulo nenhum. Eu mesmo me admiro como consigo aguentar há tanto tempo'', diz. A falta de amparo preocupa o artista principalmente quanto ao futuro das suas obras. ''Se eu desaparecer amanhã vai virar uma bagunça, por isso estou me empenhando tanto para criar esses espaços culturais. Não para aparecer, mas para garantir a preservação da minha obra'', ressalta.
Filho de uma família que se desintegrou durante o holocausto, Krajcberg não tem parentes vivos e não constituiu família no Brasil. O Espaço Cultural que leva o seu nome em Curitiba e os museus de Paris e Nova Viçosa pretendem ser instituições de estudo sobre a sua vida e o seu trabalho. A meta é que os três espaços trabalhem em constante interação ''mantendo um intercâmbio entre si'', conforme propõe o artista. ''As obras devem ser o ponto de partida para a reflexão sobre as relações do homem com a natureza, sobre a arte e o meio ambiente'', ensina Krajcberg.
Entre as obras que compõem o acervo do novo espaço em Curitiba estão 114 esculturas, três relevos entalhados em cascas de árvores e fotografias, além de vídeos, textos e publicações que serão a base para futuras ações educativas e servirão para a formação de um centro de documentação e referência sobre arte e meio ambiente.
Serviço:
Inauguração do Espaço Cultural Frans Krajcberg, no Jardim Botânico em Curitiba. Hoje às 16h30 para convidados e a partir de amanhã para o público. Visitas de terça a domingo das 9 às 12 horas e das 13 às 19 horas. Ingressos a R$ 3,00 e R$ 1,50.


