Um público de aproximadamente 15 mil pessoas já passou pela Bienal Na‹fs do Brasil 2004, uma exposição realizada no Sesc Piracicaba, no interior paulista, evidenciando as raízes da Arte Popular Brasileira. A exposição, com curadoria geral do crítico de arte Paulo Klein, destaca talentos do País nessa arte também chamada primitiva ou espontânea.
Até o dia 31 de janeiro, está aberta à visitação a bienal organizada pelo Sesc São Paulo, que está em sua sétima edição e reúne 215 obras de 90 artistas selecionados, entre eles, duas paranaenses. Viviane Zeni, de Curitiba, com ''Devoção'', trabalho com um toque contemporâneo), e Vera Simon, de Cascavel, com ''Mãe de Todos'', uma obra que remete ao tema da miscigenação.
A palavra na‹f (de origem francesa) significa ingênuo, simples e é usada para classificar o trabalho de artistas que desenvolvem um trabalho espontâneo e autodidata, sem preocupação com regras acadêmicas. Esses artistas abordam temas variados, geralmente cenas da vida cotidiana. A arte na‹f se desenvolveu ®MDBO¯®MDNM¯a partir das raízes do inconsciente coletivo. No Brasil, talentos desse segmento têm alcançado reconhecimento internacional.
Para analisar uma arte Na‹f, Paulo Klein diz preferir o pensamento ingênuo ao objeto. ''A idéia é captar misturas, etnias, que também se manifestam nas artes plásticas. As diferenças são alguns sotaques que distinguem da arte tradicional'', comenta. ''Hoje existem artistas contemporâneos que trafegam entre o na‹f e a informação moderna''. Para o curador, as obras da bienal mostram uma circularidade entre o erudito e o popular. ''São temas campesinos, rurais, mas também das favelas, o que lembra muito Di Cavalcanti'', cita.
Com o tema ''O Pensamento Mestiço'', a bienal traz obras em pintura, escultura, gravura, instalação, cerâmica e tapeçaria, que foram selecionadas pelo crítico de arte Frederico de Morais, a museóloga Jacqueline Finkelstein e o artista plástico e ®MDBO¯®MDNM¯ pesquisador Zé Tarcísio. ''Procuramos colocar na Bienal a idéia de mestiço, de mistura de várias mídias. Aqui cabem muitos tipos de arte. Tivemos propostas em outras mídias, como pintura sobre toalha de banho, xilogravura. O que importa é o resultado'', diz.
Os jurados avaliaram 849 obras inscritas. Os premiados são Deraldo Clemente, de São José do Rio Preto (SP), com a obra ''Fome Zero'' (Prêmio Destaque), e Sheila Maria Teixeira, de São Paulo, com a obra ''Através dos tempos (Prêmio Revelação). Receberam o Prêmio Aquisição Ana Amélia Carmelo, Aparecida Azedo e Ermelinda de Almeida (RJ); Gerardo da Silva e João Bosco Morais (CE), Luiz de Souza (ES), Marcelo Ivanhezi (MS) e Rodrigo Borges (GO). Quatro artistas de São Paulo levaram menção especial.
A Bienal traz uma mostra especial intitulada ''Mistura Fina A Arte da Necessidade'', na qual estão reunidos criadores de várias épocas e procedências, nomes consagrados, revelações e talentos pouco divulgados.
Paulo Klein cita Zica Bergami, paulista de 92 anos que também é autora da música ''Lampião de Gás''; Cardosinho, português que morou no Rio de Janeiro e é um dos artistas mais importantes do primitivismo; Heitor dos Prazeres, pintor e compositor carioca; o premiado Chico da Silva (AC); o mineiro Lorenzato, resgatado como artista contemporâneo; José Antonio da Silva, paulista com reconhecidos trabalhos, e o cearense Descartes Gadelha, que transcende o na‹f ao lembrar os quadrinhos de Will Eisner.
A mostra ''Mistura Fina'' apresenta também um recorte interessante da xilogravura brasileira, num amplo painel da xilogravura nordestina, com nomes como J. Borges, premiado pela Unesco como patrimônio da humanidade e que já esteve em Londrina; seus filhos J. Miguel e Manassés, o irmão Amaro Francisco e a cunhada Nena.
Paulo Klein enfatiza o grande interesse que a arte brasileira de origem espontânea tem despertado tanto no Brasil como no exterior, especialmente entre colecionadores, críticos e pesquisadores. ''Para conhecer arte brasileira contemporânea não se pode deixar de conhecer essa origem'', diz.
Na opinião do diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, há mercado para esse tipo de arte no Brasil. ''Nós buscamos valorizar o jovem, o inovador, numa visão moderna. No entanto, temos um Brasil pujante no interior. Geralmente são artistas pouco divulgados. A Bienal Na‹fs revela esse Brasil menos conhecido''.

Serviço:
- 7 Bienal Na‹fs do Brasil O Pensamento Mestiço. Até 31 de janeiro, no Sesc Piracicaba (Rua Ipiranga, 155 telefone 19-3434-4022, ramal 250). Curadoria geral: Paulo Klein. Curadores adjuntos: Osmar Pisani, Zé Tarcísio e Janete Costa. Visitação: de terça a sexta-feira, das 13 às 22 horas, sábados e domingos, das 9 às 18 horas. Realização: Sesc São Paulo.

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