''A arte é a expressão da vida''. Depois de hesitar um pouco na busca de uma definição para seu ofício, a artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira fala sobre o delicado trabalho de ''olhar o invisível'', ''escutar com o coração'' e valorizar mais a ''emoção do que a técnica''. Com mais de 20 anos dedicados à arte, Yoshiya abriu a exposição ''Fundo do Mar'', com obras de Tomie Ohtake e Minoru Nakagawara, além de seus próprios trabalhos, incluindo quadros e esculturas. O evento, que está sendo realizado no Ateliê Arte e Pesquisa, fica aberto para visitação pública até o dia 10 de abril, diariamente das 14 às 18 horas (incluindo sábados e domingos).
De Tomie Ohtake, um dos grandes expoentes da arte no Brasil, estão expostas 12 gravuras, sendo que seis delas, produzidas recentemente, foram doadas visando a organização de um centro para a integração de artistas na cidade. ''Este é um sonho antigo e espero que tenhamos mais apoio para conseguir realizá-lo até o final do ano'', comentou Yoshiya. Os trabalhos de Tomie Ohtake, que em novembro comemorou 90 anos, chamam a atenção pelas cores e traços fortes, mas, ao mesmo tempo, por transmitirem uma espécie de serenidade visual.
Amigas há mais de 20 anos, Yoshiya diz que Tomie foi a principal influência no desenvolvimento do seu pensamento estético e de postura como artista plástica. ''Ela me deu dois conselhos extremamente importantes: sempre priorizar a emoção e o sentimento durante o processo criativo, pois a técnica vem depois; e delimitar uma linha de trabalho, sendo fiel à ela'', destacou.
Dessa amizade, até resultou uma escultura elíptica para a Universidade Estadual de Londrina (UEL), em aço, com 12 metros de extensão e oito de altura feita há dez anos e cuja maquete está no ateliê de Yoshiya. Até agora, por falta de verba, o projeto não foi viabilizado. ''Londrina tem uma boa projeção econômica e social, mas, na parte cultural, a sensibilidade do empresariado local ainda está 'engatinhando'. Precisamos de mais força e empenho para as artes em geral'', pontuou.
Quase que uma homenagem póstuma, a exposição também apresenta cem esculturas em madeira de Minoru Nakagawara, que é pai de Yoshiya. No seu trabalho, talhado em madeiras típicas da região como imbuia, marfim e peroba, influência de motivos orientais como cabeças articuladas de dragões, samurais, animais típicos do Japão, e também de Buda e Gandhi, seu último trabalho. Aos 23 anos, Nakagawara chegou ao Brasil, e logo foi trabalhar no ofício que aprendeu no Japão. Era carpinteiro, mas com formação também em engenharia e arquitetura. Mais tarde, aos 74 anos, descobriu a arte de esculpir e a isso se dedicou até os 83 anos, quando faleceu, há cerca da 20 anos.
Nakagawara também era poeta e uma das surpresas da exposição são diversas esculturas de Yoshiya feitas a partir de poemas do próprio pai. Um dos belos resultados dessa experiência, é a escultura de mármore travertino sobre o poema ''O Dorso da Vida'': ''Hoje...meu dorso curvado, testemunho da vida, da morte. Sonhos diferentes do sonhado. Tristezas acumulei, riquezas da alma levarei, como esta noite em lua cheia.'' Pura sensibilidade.
A exposição também traz trabalhos que contam um pouco da trajetória artística de Yoshiya. Mais conhecida por seus quadros abstratos, a artista também expõe trabalhos figurativos, mais frequentes no início da carreira. No seu primeiro quadro, a figura de um ''trabalhador idoso, com um cajado'', explicou Yoshiya, feita sem a definição dos traços do rosto e das mãos. ''Tinha muita dificuldade nesse tipo de desenho. Em uma das mãos, até coloquei um atadura, para cobrir os dedos, dando a impressão que é uma mão machucada'', brincou a artista.
Algumas instalações também podem ser conferidas. Entre elas, uma que Yoshiya construiu a partir de uma frase de Fernando Collor, que, então presidente do Brasil, disse que com um tiro só deixaria a ''direita indignada e a esquerda estarrecida'' uma sutil alusão ao sequestro das poupanças de milhares de brasileiros, medida tomada por ele como ''necessária'' ao ajuste econômico do país. Para ilustrar essa idéia, Yoshiya utilizou uma bala de canhão, garimpada em ferro-velho, suspensa sobre um monte de pedaços de carvão.
Mas a maior parte do acervo destaca as grandes telas abstratas de Yoshiya, em que é utilizada a técnica conhecida como grafismo encáustico. Elas abordam desde a cultura do café, as geadas, na série ''Café'', até a exuberância de um agrupamento de peixes dentro da série ''Fundo do Mar'', que tem uma sequência que ilustra a capa do convite da exposição.


Serviço:
- Fundo do Mar Exposição com obras de Tomie Ohtake, Minoru Nakagawara e Yoshiya Nakagawara Ferreira. Até o dia 10 de abril no Atelier Arte e Pesquisa (Rua Belo Horizonte, 110 - em frente ao Restaurante Minato). Diariamente das 14 às 18 horas, inclusive aos sábados e domingos.

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