Festivais de cinema são uma espécie de pesadelo - longas, intermináveis, exaustivas vaigens através de uma superfície de celulóide. E a lembrança desse caleidoscópio de planos, cenas, sequências é sempre fragmentada, a partir de um prisma de impressões que transitam pela retina em velocidade alucinante. Por isso mesmo os festivais acabam sendo maratonas a portas fechadas, exercícios realizados sob condições claustrofóbicas e estressantes, oferecendo o permanente risco do julgamento apressado, da facciosa preferência momentânea que por vezes desafia a razão. Mas tal insanidade acaba justificada, pelo menos em parte, quando se está diante da uma coletânea de títulos que, para o bem ou para o mal, vão traçar a formatação da assim chamada arte cinematográfica para a próxima temporada. Algo assim como um grande desfile de pret-à-porter globalizado.
Na coleção veneziana para primavera-verão 2000-01, uma programação de 120 filmes que é, afinal, um multifacetado mix. Autoral e festiva, a fórmula buscada pela organização para esta 57ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica. A curadoria, a frente o diretor Alberto Barbera, pensou 2000 como uma edição menos pesada que a do ano passado, procurando mesclar reflexão e diversão. A dupla intenção, de resto, é o sonho - ou a utopia - de qualquer mostra de cinema: um olho naquilo que é feito à margem do sistema, na produção contra o ‘‘mainstream’’, no percurso não homologado. E um outro no mercado, vale dizer, no produto serializado de entretenimento. A prática deste raciocínio justifica a coexistência e a convivência pacíficas entre cineastas autorais, veteranos ou emergentes, e uma certa população mais ou menos luminosa, constituída por astros e estrelas nem sempre atores e atrizes.
As únicas mulheres a concorrer aos Leões este ano no Festival de Veneza chegaram ao Lido trazendo dois melodramas, embora com enfoques diferentes. ‘‘The Man Who Cried’’, terceiro longa da inglesa Sally Potter (‘‘Orlando’’), veio recheado de nomes estelares, em elenco encabeçado por Christina Ricci, Johnny Depp, John Turturro, Cate Blanchett, e com o legendário diretor de fotografia Sacha Vierny. E muitas e copiosas lágrimas, como se o título precisasse ser seguido à risca. De 1927 na Rússia conturbada pelas lutas ideológicas internas ao fim da Segunda Guerra Mundial, o roteiro segue a trajetória da judia russa Fegele (Ricci), sempre perseguida e sobrevivente.
A sobrevivência, aliás, é o tema condutor deste filme trágico e melancólico, narrado principalmente de um ponto de vista musical, em que óperas clássicas e melodias plangentes dos ciganos dão a tonalidade dramática. Um conto sobre gente sem pátria, sobre imigrantes, sobre raízes e sonhos perdidos. Se não era para ser aplaudido irrestritametne, também este eficiente produto ‘‘kitsch’’ não merecia as muitas vaias que levou. Como o personagem de John Turturro é um tenor italiano que sobrevive artisticamente utilizando expedientes nada éticos com aderir aos alemães que invadem Paris e delatar judeus, é muito provável que alguns coleguinhas da imprensa local, obviamente em maioria absoluta, tenham manifestado efeitos colaterais da chamada ‘‘síndrome de Mussolini’’.
Por sua vez, Clara Law, chinesa (de Macau) radicada há cinco anos na Austrália e com um interessante passado como diretora em Hong-Kong, apresenta em concurso um insólito ‘‘road movie’’ em que entrecruza culturas, continentes, memórias, dores. A divindade a que se refere o título é a mítica e rara Citroen modelo DS (Déesse, em francês), modelo 67. O carro-fetiche é objeto do desejo do japonês JM, um hacker solitário, amante de serpentes que mora em Tóquio. Ele descobre um modelo na Austrália, para onde segue sem pensar duas vezes. O que ele não sabe que é que sua viagem vai levá-lo muito mais longe do que imagina, física e emocionalmente.
Depois de que descobrir que o dono do carro matou a mulher e se matou depois, ele encontra no lugar do crime uma jovem cega, BG (todos tem nomes que parecem símbolos). Com ela a bordo da DS, JM empreende uma peregrinação pelas entranhas do ‘‘outback’’ australiano e pelas entranhas do próprio tempo, onde estão guardadas as terríveis experiências de BG, uma atormentada vítima de pedofilia incestuosa. Ao mesmo tempo o filme constrói uma sofrida história de amor, com imagens fortes e originais e alternando ritmo ora lento, ora acelerado, Clara Law tem boas chances de sair do festival com um peso a mais na bagagem.
E os italianos parecem estar no festival com todo o estoque disponível de libelos. Eles estão divididos entre o acerto de contas com a máfia e a reconstituição histórica - neste caso com o longo e engajado ‘‘Il Partigiano Johnny’’, de Guidfo Chiesa. O único até aqui à margem deste processo é Gabriele Salvatores e seu nevralgicamente divertido ‘‘Dentes’’. Depois de ‘‘I Cento Passi’’, a recorrência mafiosa passa por ‘‘Placido Rizzotto’’,
sobre o assassinato de um sindicalista pelo braço siciliano da máfia. Temos sempre a impressão, apesar de toda a honestidade dos argumentos e de todo o clamor de justiça, que são assuntos internos, afinal ‘‘cosa deles’’.
E quem está mais uma vez na berlinda é Fidel Castro, condenado com rigor pelo segundo filme americano a entrar na competição. ‘‘When Night Falls’’, do artista plástico Julian Schnabel, é paralelamente elegia ao homossexualismo e censura impenitente ao regime castrista, que calou boa parte da brilhante intelectualidade da ilha por não concordar com as opções sexuais de poetas, escritores, pintores e bailarinos. O problema do filme, cinebiografia do escritor Reinando Arenas (1943-1990), é que Schnabel não é diretor de muitos recursos. ‘‘When Night Falls’’ sobrevive, e bem, porque conta uma história verídica, forte e envolvente, e porque tem um ‘‘casting’’ de primeira linha, com atores que enchem os olhos. Nenhuma surpresa, se o espanhol Javier Bardem leva a Coppa Volpi de melhor ator. Quem está no filme também é Johnny Depp em papel duplo, um deles um travesti impagável. E o diretor Hector Babenco, numa curtíssima participação, evidentemente afetiva.

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