CANNES - Paulo Francis disse uma vez que há um livro fundamental sobre o holocausto dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, bastaria apenas ‘‘La Tregua’’, do italiano Primo Levi, para se ter uma idéia muito próxima do inferno através da narrativa de quem de fato esteve lá. É este relato que aportou na mostra competitiva do Festival de Cannes, pelas mãos do consagrado veterano Francesco Rosi.
Rosi, que tem uma brilhante folha corrida da qual faz parte o engajado thriller político ‘‘O Caso Mattei’’, laureado com a Palma de Ouro em 1973, vinha há dez anos embalando com muito carinho o projeto de levar à tela a novela de Primo Levi. E isto somente foi possível graças a um considerável consórcio de produtores europeus. Houve problemas durante as filmagens, e sérios: o diretor de fotografia Pasqualino De Santis e o montador Rugggero Mastroianni, entre os melhores do mundo em suas especialidades, morreram sem completar o trabalho, sendo respectivamente substituídos por Marco Pontecorvo e Bruno Sarandrea. Além disso, as baixíssimas temperaturas nas locações na Ucrania complicaram o andamento do cronograma. Mas os resultados foram compensadores: ‘‘A Trégua’’ é uma obra comovente, embora um tanto convencional em sua maneira de contar a história. Uma história que chega ao espectador como um épico da sobrevivência e da liberdade contra a opressão e a ignomínia.
A trama ‘‘La Tregua’’ abre em 1945, com os alemães em fuga destruindo o campo de concentração de Auschwitz e abandonando os prisioneiros que ainda vivem. Num dos caminhões russos que chegam para buscar quem ainda restou, Primo Levi (John Turturro, de ‘‘Quiz Show’’), judeu italiano com formação universitária, começa sua longa jornada de volta à casa, em Turim. A pé, de trem ou de caminhão, ele e um grupo de companheiros cumprem um longo e exasperante circuito que alterna esperanças e decepções durantre cerca de um ano.
O filme se detém particularmente na redescoberta da dignidade, da esperança, enfim, da vida que já não se julgava possível. Em nenhum momento também se perde de vista a dimensção do ultraje moral. Turturro compõe um personagem tocante, física e emocionalmente. Às vezes passiva testemunha, às vezes relator do penoso processo. Seja em eloquentes intervenções ou em off citando seus textos literários, ele efetivamente convence. Quando, por exemplo, se refere ao fato de seu testemunho literário ter sido um ‘‘atroz privilégio’’.

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