Visões do desejo e do medo
VISÕES DO DESEJO E DO MEDO
DivulgaçãoProdução utiliza metáforas do êxtase vivido pelas santasFilme do curitibano Marcos Jorge realizado em Roma trata de imagens descritas por três santas vividas nos séculos 16 e 17
Zeca Corrêa Leite
Artista plástico e cineasta, o curitibano Marcos Jorge está em Roma cuidando das filmagens de Visões - Três Representações do Desejo, que tiveram início em Curitiba, dias atrás. O trabalho que ele realiza terá sua estréia dia 27 deste mês no Festival Pontino, o mais importante evento de música contemporânea da Itália, que acontece na cidade de Sermonetta.
O filme será projetado ao som de uma música composta especialmente por Gabriele Manca, Paolo Pachini e Roberta Vacca. A execução ficará por conta de Antonio Sardi De Letto. O festival transcorre no subterrâneo de um castelo medieval, onde em séculos passados funcionava a estrebaria.
Três santas que viveram nos séculos 16 e 17, inspiraram o artista nesta obra. Santa Teresa dAvila, Santa Maria Maddalena de Pazzi e Suor Maria Crocifissa dei Tomasi deixaram para a história escritos e relatos dos momentos de êxtase profundo.
DivulgaçãoSuor Maria Crocifissa surge imobilizada em uma teia de desejosVisões traz as interpretações da atriz Brígida Menegatti (Maria Maddalena) e da modelo Evelyn Fiuza Sanches (Maria Crocifissa). Na Itália uma terceira atriz vive Santa Tereza dAvila.
Maria Maddalena foi a única delas a não se ocupar em escrever suas visões. Em delírio falava, gritava, sussurrava aquilo que passava pela mente ensandecida. Quando isso acontecia, no convento onde morava, quatro religiosas ouviam-na, e outras quatro escreviam.
Tereza dAvila é uma doutora da Igreja que foi respeitadíssima no século 16. Conta o cineasta que ela morreu santa; dois anos depois foi desenterrada e seu corpo cortado em pedaços e enviado para cidades européias. Em Roma ficou um dedinho do seu pé.
A montagem que será apresentada no final do mês terá duração de 45 minutos. Marcos Jorge disse à Folha2 que suas imagens serão divididas em três módulos, cada um de sete minutos. Os intervalos entre os módulos terão registros que mudam muito lentamente.
Alguns deles foram produzidos em Curitiba, como o que traz nuvens em movimento. Fiz várias animações dessas tomadas, para fazer algo como se fosse céu barroco de igreja barroca, detalha o cineasta.
Tem também uma cesariana, em tempo real: os tecidos vão sendo cortados, mas a platéia não sabe o que é aquilo - a não ser que se trata de uma cirurgia. O mistério persiste até a retirada da criança.
A terceira imagem é a do sangue, no interior do corpo humano. Essa é a parte visceral do trabalho, comenta Jorge. Para o roteirista Aleksei Wrobel Abib a visceralidade tem a ver com a mortificação, a dor das santas.
Seria esta uma viagem para dentro da alma? Marcos Jorge responde que sim. Nas tomadas que fizemos ao longo de dois dias, em nenhum momento vê-se os olhos. Eles não são visíveis. Aliás, em todas as cenas que têm pessoas, elas estão com os olhos fechados, assim como as duas santas (Maria Maddalena e Maria Crocifissa), continua o diretor.
Esse detalhe tem a função de acentuar a visão interior. Diz-se que os olhos são as janelas da alma, na verdade acho que nesse trabalho fechei as janelas da alma, porque estou para dentro do olho. Fui para o interior do corpo, do desejo, da alma.
Surgem então as metáforas que permeiam o filme, como uma das mulheres imersa em leite numa banheira; o vestido de noiva queimado ritualisticamente; Suor Maria Crocifissa (Evelyn Sanches) amarrada por barbantes, como se estivesse imobilizada a uma teia de desejos. Para onde ir se todos os lados a atraem?
As imagens são inspiradas nos textos das santas, mas não se referem diretamente a eles. São indagações sobre a existência humana, explica o cineasta.
Carne rasgada pela lâmina de bisturi, barbantes sustentando um corpo no espaço, maternidade e sensualidade na associação do leite - o filme de Jorge não seria uma leitura da força do desejo num embate com o medo? Não seria este o retrato de duas energias contrárias - a de movimento, com a da passividade?
Marcos Jorge concorda. Essa é característica das religiões monoteístas - hebraísmo, cristianismo e mulçumanismo -, a de se ter o controle do desejo. Esse meu trabalho atua por esse lado, do medo e do desejo, que são parecidos, quase irmãos.
Sobre Maria Maddalena, Maria Crocifissa e Tereza dAvila, comenta que, psicanaliticamente, vê-se em todas elas, que a relação espiritual tinha sublimação de desejo para alcançar a espiritualidade. Quase em todas as religiões a liberação da alma passa pela cancelação do corpo.





