Notícia ruim corre rápido. Este ditado nunca soou tão verdadeiro quanto nos últimos meses. Atentados, sequestros, desastres aéreos, enchentes, rebeliões e guerra. Esses e outros tipos de tragédia se tornaram inquietantemente corriqueiros nas pautas dos telejornais. Ao mesmo tempo, profissionais que editam e apresentam os telejornais vivem o dilema de ocultar qualquer emoção. ''Claro que me emocionei e me revoltei com os atentados em Nova York, mas a emoção não pode contaminar o trabalho, senão você reage como vítima'', ensina Boris Casoy, âncora do ''Jornal da Record''.
Mas tratar de assuntos escabrosos com frieza também é arriscado. Essa ''imparcialidade'' exacerbada pode transmitir ao telespectador uma imagem de indiferença. ''O importante é ser natural e autêntico. Se acontecer de se emocionar, paciência. O que fica esquisito é falsear a reação'', ressalta Sérgio Rondino, apresentador e editor do ''Jornal da Noite'', da Band, que está deixando a bancada do noticiário após sete anos. Ana Paula Padrão, apresentadora e editora do ''Jornal da Globo'', por sua vez, tenta se distanciar da emoção. Pelo menos em frente às câmaras. ''Isso não torna o repórter alguém que nunca se emociona. Já chorei muito no travesseiro, depois de um dia inteiro de matérias e entradas ao vivo'', admite.
Outra ''sinuca'' enfrentada pelos jornalistas é a maneira de passar informações e imagens ''pesadas'' para o público. Os noticiários televisivos podem ter em todos os seus blocos apenas notícias de assassinatos, acidentes e corrupção. Ou só de tragédias, como ocorreu no dia dos atentados ao World Trade Center. Mas será que há uma estratégia na hora de montar o telejornal para não deixar o telespectador roendo as unhas tenso na poltrona? ''Não há como 'editar' a notícia para torná-la mais ou menos chocante. Fato é o fato'', pondera Ana Paula. Para Boris Casoy, este equilíbrio na hora de colocar notícias boas e ruins não existe. ''Jornal que equilibra é jornal de cardíaco'', alfineta o jornalista.
A montagem do telejornal também requer atenção. Colocar em sequência notícias pesadas e leves é evitado na maioria dos noticiários. ''Toma-se o cuidado de ter o clima adequado na hora de 'espelhar' o telejornal'', diz Sérgio Rondino, recorrendo ao jargão profissional para a montagem de um telejornal. Mesmo assim, o jornalista prefere terminar o ''Jornal da Noite'' com matérias mais ''alegres''. ''Procuro alguma coisa para cima. A não ser que haja uma notícia de última hora'', reconhece Rondino.
Os próprios apresentadores, no entanto, sabem o quanto é complicado dar notícias impactantes. Um bom exemplo foi o de Cláudia Barthel, do ''Jornal da TV'', da Rede TV!. Ela ficou literalmente ''engasgada'' na hora de chamar a matéria sobre a morte do Senador Mário Covas. ''Fiquei com os olhos cheios de lágrimas. O editor chegou a perguntar se estava tudo bem'', recorda. Já Sérgio Rondino diz que uma cena em que um garoto palestino morre ao lado do pai no meio do fogo cruzado o deixou emocionado. ''Engoli em seco'', admite.
Nessas horas, os telejornais têm também suas estratégias. No ''Jornal da Noite'', depois de uma sequência de reportagens ''fortes'', Sérgio Rondino procura ''ganhar fôlego'' usando a informalidade para tratar de outro assunto, com frases do tipo, ''Chega, vamos tratar de um assunto mais leve''. Bóris Casoy às vezes também fica indignado e revoltado, como no caso do World Trade Center. ''As pessoas se emocionam, mas quando põem a mão na massa se voltam mais para a questão do trabalho. É uma capacidade que a profissão obriga a desenvolver'', diz Casoy.
Assuntos trágicos não provocam apenas comoção. Há uma curiosidade do telespectador em relação a notícias do gênero. No caso dos atentados ao Pentágono e ao World Trade Center, o comportamento do Ibope refletiu bem o fascínio pela catástrofe. Os vários telejornais obtiveram audiências acima da média no dia 11 de setembro. O ''Jornal Nacional'', da Globo, que costuma manter médias de 46 pontos, alcançou média de 53. O ''Jornal da Record'', que registra normalmente 7 de média, chegou a 10. Já o ''Jornal da TV'', da Rede TV!, marcou 4 quando geralmente fica nos 3 pontos.
Para os profissionais que apresentam e editam reportagens do tipo as reações do público são, no mínimo, curiosas. ''Esse tipo de reportagem acaba satisfazendo a morbidez das pessoas. As mesmas que se queixam da violência da tevê gostam de assistir a isso'', acredita Boris Casoy, âncora do ''Jornal da Record''. Já Sérgio Rondino, do ''Jornal da Noite'', da Band, acha que o telespectador reage jornalisticamente. ''O interesse do público varia sempre de acordo com o nível de interesse da notícia'', defende. ''Não há quem não queira saber o que aconteceu num dia que começa com as duas torres gêmeas de Nova York explodindo. A boa audiência prova que telespectador gosta é de notícia, qualquer que seja ela'', faz coro Ana Paula Padrão, do ''Jornal da Globo''.

mockup