Visões de América Latina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha2 
O 36º Festival de Cinema de Gramado chega hoje ao último dia da competição. Com a chegada dos curtas-metragens à programação, a qualidade da produção e a diversidade temática oferecidas receberam um considerável up grade. Mas apesar disto, não há ainda muito a comemorar. Tratando-se de um festival de cinema, a expectativa é sempre maior, e este é um fator imutável, por mais glamour e condescendência que se adicionem à receita. Festivais de cinema são por tradição eventos nos quais se testa a novidade, a invenção, a audácia. Gramado 2008 ainda não se enquadra neste perfil.
O segmento latino teve mais uma entrada, desta vez barulhenta e espalhafatosa, com muito sangue e ranger de dentes em versão colombiana. ''Perro Come Perro'', uma alegoria nada sutil, mostra simbólica e literalmente isto mesmo que o título diz. Há cães vadios pelas ruas de Cali, brigando por qualquer coisa que mate a fome. E há os cães do submundo do crime, seres que se entredevoram sem qualquer cerimônia pelos despojos do crime.
O filme, um impiedoso thriller de criminalidade explícita temperado e exacerbado por um mar de sangue e algum suspense, traça o destino imutável de dois delinquentes subalternos que desrespeitam algumas leis da marginalidade. Eles infringem normas não escritas, vigentes no universo do crime. Um deles mata quem não deve, e o outro comete apropriação indébita de grande soma de dólares, isto é, rouba o patrão. Cutucam o chefão do crime com vara curta, e por isso devem pagar. Mas até que paguem, muita selvageria vai bater na tela, tingida de vermelha.
''Perro Come Perro'' é filme de estréia do diretor Carlos Moreno, alguém impregnado de tecnologia hi-tech e maneirismos formais e temáticos, por exemplo, de um Tony Scott (''Chamas da Vingança'', ''Déjà Vu'', ''Domino'') e do primeiro Tarantino (''Cães de Aluguel'', ''Pulp Fiction - Tempos de Violência''). Mesmo trabalhando neste terreno já trilhado, e bem trilhado, não se pode negar boa dose de habilidade a Moreno na construção da trama, que agrega à narrativa um elemento que não se encontra com frequência: a ''santeria'', a magia negra, a popular macumba como fator que acrescenta peso sócio-cultural ao ambiente. O elenco de desconhecidos é ponto alto.
No intervalo da programação de anteontem, e em continuidade à serie de homenagens deste ano, chegou a vez da polêmica. Escolhido para receber o Troféu Eduardo Abelin, destinado a reconhecer o conjunto da obra de cineastas do país, Julio Bressane subiu ao palco e repetiu, sinteticamente, as acusações que já tinha feito ao Festival de Gramado em sua chegada a Porto Alegre. Disse que os organizadores sempre o trataram mal, recusando seus filmes. Mas atenuou um pouco suas diatribes, afirmando que de tempos para cá a mostra vem tomando novos rumos, e que isto justificava sua presença e a aceitação do troféu.
Bressane, um transgressor desde sua coleção de títulos com os quais deu forma e consistência ao movimento denominado Udigrudi (corruptela de underground) nos anos 1970, uma espécie radical derivada do Cinema Novo, nunca foi conhecido pelo grande público. Aliás, ele mesmo reconhece que faz filmes que devem agradar inicialmente a ele, depois aos outros, já que considera que o cinema está acima do público - sua filmografia de 27 títulos em mais de quarenta anos de carreira só é mesmo conhecida por iniciados, críticos e cinéfilos, e mesmo assim ainda bem longe de ser uma unanimidade.
Cineasta-autor nos limites estritos deste conceito, Bressane está sempre em busca do experimental, do não convencional. Queridinho de alguns curadores de festivais internacionais, daqui a duas semanas ele estará em Veneza a convite, mostrando fora de concurso seu último e inédito trabalho, ''A Erva do Rato'', adaptação livre de dois contos de Machado de Assis, ''A Causa Secreta'' e ''Um Esqueleto''.
Fechando o quarto programa do festival, o único documentário da mostra competitiva, o brasileiro ''Pachamama'', realizado por Erik Rocha, filho de Glauber Rocha. O filme, na verdade uma viagem à tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, busca uma síntese entre a cultura dos povos dos Andes e a nova mentalidade política destas mesmas comunidades.
Vindo de onde veio, quer dizer, com o DNA glauberiano à flor da pele, o longa de Erik Rocha não é sério candidato à popularidade. O filme na verdade se inscreve mais na linha do experimental, embora não radicalize suas provocações formais e se mantenha até mesmo bem comportado quando faz proselitismo político - o que Glauber levava ao paroxismo.


