VISITAS ILUSTRES - Imortais inauguram espaço infantil em Curitiba
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sexta-feira, 15 de agosto de 2003
Luiz Claudio Oliveira<br> Equipe da Folha 
Curitiba Os escritores Ana Maria Machado e Carlos Heitor Cony, ambos da Academia Brasileira de Letras (ABL), estiveram em Curitiba anteontem, para a inauguração de um espaço infantil no Colégio Decisivo. Ana Maria Machado, que no próximo dia 29 será empossada oficialmente na ABL cedeu seu nome para a biblioteca do colégio. Os dois intelectuais também deram palestras abertas à comunidade.
Os colegas na Academia foram carinhosamente recepcionados pelas crianças da escola e Ana Maria ainda respondeu a perguntas de uma equipe mirim de três entrevistadoras. A primeira pergunta foi direta: ''Por que tanta gente não gosta de ler no Brasil?''. A experiente escritora, que tem mais de 100 títulos publicados, a grande maioria dedicada às crianças, explicou didática e pacientemente que talvez as pessoas não conheçam ainda o prazer de ler, ou que simplesmente tenham escolhidos os livros errados.
''Ler pode ser a mesma coisa que uma brincadeira ou que um namorado'' comparou a autora de ''História Meio ao Contrário'', para concluir: ''Se você não gosta mais daquela brincadeira, ou do namorado, ou do livro, é só trocar de brincadeira, de namorado, ou de livro''.
Cony e Ana Maria não têm apenas a academia em comum. A literatura e a vida dos dois podem ter mais pontos de encontro do que se imagina à primeira vista. Por exemplo, ambos foram presos e sofreram com a ditadura militar, a ponto da escritora deixar o País. Os dois também são jornalistas e misturam muito memória e imaginação em cada livro. Foram premiados logo nos seus primeiros trabalhos e escrevem muito.
Mas existem as diferenças e a mais óbvia é a inclinação para a literatura infantil. Ana Maria publicou muito mais literatura para crianças do que para adultos. ''Escrevi mais livros para crianças, mas escrevi mais páginas para adultos'', ela faz questão de ressalvar. Já Cony escreveu apenas um livro infantil e foi no ano passado que saiu ''O Laço Cor de Rosa'', pela editora Rocco. ''Foi uma encomenda para uma coleção, da qual também participaram o Moacir Scliar e o João Ubaldo Ribeiro'', explicou. Para Cony, ''tem que se ter jeito para escrever para crianças'', mas ele considera este o setor mais próspero do mercado editorial.
Mas não foi por um mercado próspero ou por ''ter jeito'', que Ana Maria Machado começou a escrever literatura infantil. ''Eu sou uma linguista, tenho doutorado sobre isso e meu interesse foi sobre a língua direta das crianças, uma linguagem falada e isso é diferente do escrever para adultos'', explica a autora. Quando estava no exílio, fez doutorado na França, sob orientação de Roland Barthes, escrevendo sobre a escolha dos nomes na obra de Guimarães Rosa e a tese foi transformada no livro: ''Recado do Nome'', editora Martins Fontes.
Depois de mais de 100 obras editadas em várias línguas e de 14 milhões de exemplares vendidos no mundo todo, ela agora trabalha em um livro de contos adultos, mas ainda não tem nem nome nem editora. ''Eu não faço projetos, vou tocando de ouvido'', revela, explicando que gosta de escrever ficção pela manhã bem cedo. ''Acho que é porque pela manhã ainda estou mais perto do inconsciente''.
Carlos Heitor Cony também deve lançar novo livro no ano que vem. Ele foi contratado pela editora Planeta para entregar um novo romance em março de 2004, mas confessa que nem começou ainda. ''Eu preciso ter um prazo, trabalho melhor assim, mas não preciso muito tempo porque escrevo rápido'', diz.
O autor de ''O Indigitado'', outro obra de encomenda, acaba de lançar pela editora Cia das Letras o livro ''A Tarde de Sua Ausência'', em que novamente explora o tema da memória sendo recuperada para contar uma história. Desta vez, o personagem começa a lembrar e a contar por causa de uma fotografia.
''Assim como em Proust, com a 'madeleine' que o levou à reflexão, ou em Cidadão Kane (filme de Orson Welles), com o ''rosebud', esse é um recurso muito utilizado que pode ser encontrado também na literatura russa e francesa, no cinema de Fellini e Bergmann e também no Machado de Assis'', lembrou.
Ele já havia usado esse recurso literário em outro livro, ''Quase Memória'', em que o estopim das recordações foi um embrulho. Este livro, muitos críticos afirmaram ser uma homenagem ao pai do escritor, mas ele nega. ''Falaram isso, mas, na verdade, o romance foi uma homenagem à minha memória.'' E nas lembranças de Cony e Ana Maria deve ficar gravado o momento em que atravessaram um corredor cheio de crianças que saudaram com entusiasmo estes exemplos de professores da língua portuguesa.


