A obra de Mário de Andrade costuma conquistar adesões ao primeiro contato. Ocorre, com frequência, na adolescência durante as aulas de Redação quando o enfoque sobre o escritor recai sobre sua fase iconoclasta ligada à Semana de Arte Moderna de 22.
Já a trajetória posterior, marcada pela maturidade intelectual, aparece difundida particularmente entre entusiastas dos círculos acadêmicos. Foi durante boa parte deste segundo período criativo que o autor de ''Macunaíma'' teve a companhia diária de José Bento Faria Ferraz, seu secretário particular de 1934 a 1945.
Bento organizava a vasta biblioteca do mestre, que reunia 17 mil volumes, muitos nas áreas de música, arte, literatura, etnologia e folclore. Ele chegava de manhã e ficava até meio-dia, quando almoçava e em seguida corria para o outro emprego na Biblioteca do Sindicato dos Bancários. É sobre essa convivência que ele vem de São Paulo para falar em Londrina, onde chega hoje e permanece até sábado para participar de várias atividades.
''Ele conviveu com o Mário, o intelectual mais completo do Brasil no século XX. Trabalhou para o escritor quando este foi chefe do Departamento de Cultura de São Paulo, ou seja, durante um dos momentos mais rico da trajetória de Mário'' diz Carlos Okawati, responsável pela vinda de José Bento. A programação começa hoje, às 20 horas, com uma palestra do convidado no Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL.
Amanhã, às 8h30, ele será homenageado no Colégio Estadual Padre Wistremundo Roberto Perez Garcia (Rua Tanzânia, 110), no bairro Ouro Verde, zona norte da cidade. ''Batizamos a biblioteca da escola com seu nome'' anuncia Okawati, que é diretor da instituição. Ali, José Bento será recebido com uma apresentação de dança e canto de meninos caingangues da reserva indígena do Apucaraninha, além de apresentações da Banda Municipal e de capoeira expressiva do mestre Anandi.
Na biblioteca, será inaugurada uma exposição de livros de (e sobre) Mário de Andrade, uma mostra de artistas locais com pinturas que retratam o escritor, além de cartazes e fotos da peça ''Macunaíma'', encenada em 1979 em Londrina pelo grupo do diretor Antunes Filho. Ainda nesta sexta-feira, às 20h30, será exibido o documentário ''José Bento, amigo de Mário'' na auditório da Associação Médica (Praça 1º de Maio).
O filme foi rodado por um grupo capitaneado por Okawati e cuja equipe de produção contou com o artista plástico Paulo Menten, a docente do Departamento de Ciências Sociais da UEL Raimunda de Brito Batista e os jornalistas Luciano Pascoal, Rodrigo Souza Grota, Claudio Yuge, Emerson Dias, Paulo Briguet e Adriana Yumi.
A projeção será precedida por um recital de piano e voz com Robson Poreli Moura Bueno e Edilson Lourenço de Oliveira e uma leitura de poesias de Mário de Andrade e do próprio José Bento pela voz do poeta londrinense Thomaz D'Amico. Está previsto ainda um encontro do convidado com Aparecida Moraes, uma senhora de 91 anos que há 44 anos mora em Londrina, mas que na juventude foi aluna de Mário no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Será um encontro de privilegiados.

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