Visita à degradação humana
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segunda-feira, 26 de maio de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A realidade é tão dura que a fome é quase palatável. A ação é atemporal e o lugar, a princípio, é a Eslováquia mas poderia perfeitamente ser qualquer país onde há exploração da miséria. Literal e metaforicamente, tudo é muito frio na casa de Ivanovitch e Bilenka, personagens centrais de ''Os Camaradas'', espetáculo que a Cia. Carona de Teatro, de Blumenau (SC), apresenta hoje e amanhã na 36 edição do Festival Internacional de Teatro. O local escolhido foi o Alternativo/Casa de Cultura, às 21 horas.
Sob fortes vibrações de teatro contemporâneo, fica difícil uma classificação correta do espetáculo dirigido por Pépe Sedrez. Mas se for para rotular, trata-se de um drama que toca em dois pontos cruéis: degradação humana e opressão. Em cena, quatro atores Arno Alcântara Júnior, Fábio Luís Hostert, James Deck e Paula Braun que durante 50 minutos vão mostrar a que ponto pode chegar gente que tem o cotidiano circundado pela miséria. Em grande parte da encenação utilizam um idioma próximo à sonoridade do alemão e polonês.
A história, aparentemente, é comum de um casal faminto durante rigoroso inverno na Eslováquia. Ivanovitch Dimitri está desempregado e Bilenka é uma mulher de saúde frágil. Pouco se comunicam. Regularmente são visitados por representantes do Partido Eslovaco que, em troca das carnes de Bilenka, deixam um pouco de alimento. As visitas se intensificam e a esposa de Ivanovitch mata a fome da família em troca de alívios sexuais aos poderosos visitantes.
A trama, no entanto, ganha outros rumos com a chegada de um médico que se propõe a curar a doença de Bilenka. Mas que doença é essa que acomete tal mulher? Seria física ou da alma? No fundo, no fundo, mesmo contrariado com tais favores da mulher, Ivanovitch gostaria que Bilenka sarasse? Quem e o que pretende esse médico? As respostas ou interpretações caberão ao público colher. ''A doença de Bilenka poderia ser falta de amor, fome de diálogo já que ela é uma mulher tratada como mercadoria'', sinaliza o diretor Pépe Nedrez.
O cenário é composto apenas por mesa, banquinhos, pratos e talheres. A trilha sonora é executada ao vivo pelos atores que utilizam alguns instrumentos, entre eles o bandoneon e a harmônica. Desde que estreou, em novembro de 2001, e ganhou a estrada ou os palcos do Brasil, ''Os Camaradas'' impressionou público e crítica. Até agora, foram cerca de 60 apresentações no ano passado, foi um dos destaques do Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba.
O espetáculo da Cia. Carona de teatro teve origem em ''Os Camaradas Médicos'', de Giba de Oliveira, autor de Blumenau. O texto curto cuja encenação tinha apenas 13 minutos , ampliado pelo dramaturgo argentino Alfredo Megna que assistiu a uma das apresentações e se entusiasmou. Foram nove de preparação. ''Mais que ampliar, ele (Megna) trabalhou com a construção da dramaturgia em cena'', diz o diretor Pépe Sedrez. ''Vieram cenas, personagens e relações que estavam em camadas mais aprofundadas no texto original'', complementa. Essa é sexta montagem da companhia que está em atividade desde 1995.
FICHA TÉCNICA
''Os Camaradas'', com a Cia. Carona de Teatro, de Blumenau, Santa Catarina. Texto de Alfredo Megna com integrantes da companhia, baseado em ''Os Camaradas Médicos'', de Giba de Oliveira. Direção: Pépe Sedrez. Elenco:Arno Alcântara Júnior, Fábio Luís Hostert, James Deck e Paula Braun. Trilha sonora, figurinos, cenário e iluminação: trabalho conjunto da Cia. Carona de Teatro. Maquiagem: Fábio Luís Hostert


