VISIBILIDADE RESTRITA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de julho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Música clássica e marketing são opostos que nunca se atraem, certo? Errado. Para escândalo de alguns, a torre de marfim que mantinha os artistas eruditos alheios às estratégias de comunicação comuns aos universo pop vai aos poucos sendo demolida.
Hoje em dia, todas as atividades profissionais dependem da mídia. A música de concerto não pode ficar isolada sob o risco de ficar sem público. No mundo todo, constata-se um decréscimo de audiência. As platéias não se renovam. É preciso pensar nisso, nas relações com a imprensa e com o público diz a jornalista carioca Heloísa Fischer, uma das convidadas do 21º Festival de Música de Londrina.
Ela profere uma palestra hoje, às 18h15 na Associação Médica de Londrina, onde vai esmiuçar as relações entre marketing e música clássica. Heloísa atua no mercado de música de concerto desde 1993 atacando em várias frentes. Já escreveu colunas em jornais, editou revistas musicais, coordenou programações de rádio, foi consultora artística de gravadora e deu aulas para alunos de Comunicação.
Não se conforma com o descuido com que os musicistas tratam a divulgação de seus eventos. A relação com a mídia beira, muitas vezes, o rasteiro conta. Vejo isso no dia-a-dia. Já recebi textos que sequer traziam o local do concerto. Outro dia, me enviaram um e-mail de Curitiba divulgando um recital sem colocar o nome da cidade. Tive que cruzar os endereços de rua e bairro de outras cidades para adivinhar onde seria realizada a apresentação.
Há casos acrescenta ela em que anunciam um determinado concerto e, quando este é cancelado, deixam de comunicar o imprevisto às redações dos jornais. Tudo bem, a primeira preocupação do artista é com a música salienta ela. Mas na medida em que ele mostra suas composições ou executa peças para um público, sua atenção deveria voltar-se também para outros elementos aparentemente secundários. Da mesma forma quando se pensa em viabilização de verbas públicas e privadas. Neste caso, é preciso atentar-se para a relação com os patrocinadores.
Com um discurso direto e sem meias palavras, Heloísa acredita que muitas das dificuldades atravessadas pela seara da música clássica sendo a incapacidade para renovação de platéias, uma das principais poderiam ser solucionadas com a adoção de exemplos do exterior. Ela lembra que, anos atrás, o Fundo de Cultura dos Estados Unidos realizou uma pesquisa para verificar que segmentos do público eram potencialmente mais permeáveis a frequentar salas de concertos e recitais.
Chegou-se a conclusão, a partir das estatísticas, que os apreciadores de artes plásticas possuíam uma curiosidade mais aguçada e estariam mais propensos a se render às harmonias e acordes. Com esses números nas mãos, uma orquestra fez um concerto especial num museu levando em conta o arco de intereses dos ouvintes. A programação incluía desde projeção de imagens até o apoio de uma ambientação plástica no hall de entrada. Foi uma idéia sensacional conta.
Outro exemplo que ela gosta de citar ocorreu também em terras norte-americanas, quando uma orquestra decidiu associar-se à MTV para tentar atrair o público jovem a seus concertos. Um dia lembra a jornalista fui falar na sede da Orquestra Sinfônica Brasileira (do Rio de Janeiro) e durante minha palestra disse que eles deveriam fazer o mesmo, já que a MTV pensa no jovem o tempo todo. Falei que eles deveriam não só convidar o diretor da MTV como também o editor da revista Capricho para participar de suas reuniões. Eles ficaram chocados.
Segundo Heloísa, faltam lobbistas na música clássica. Quando os artistas vão fazer reivindicações para o Ministro da Cultura ou para o Presidente, você nunca vê um representante da música clássica. Você vê a Fernanda Montenegro representando o teatro, o Cacá Diegues representando o cinema e por aí em diante. Mas a música clássica está sempre sem representante. Agora mesmo, há um comercial de café na TV em que aparece um sujeito dormindo na poltrona durante a apresentação de uma ópera. Isso é um desserviço à música clássica, mas ninguém sai gritando nos jornais.
A palestra, como se vê, é provocativa.


