Visão objetiva
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Alexandre Borges encara a carreira de ator de forma pragmática. Sem firulas e esbanjando simpatia, ele completa 20 anos de carreira na tevê sabendo que a grande maioria dos personagens apenas passa no vídeo. E que o importante é se divertir a cada trabalho. "Decoro textos, acordo cedo e sou profissional. É meu ofício e respeito meu contrato com a Globo. Algumas vezes sou surpreendido, em outras eu tento surpreender. Não me deixo abater por grandes sucessos ou por fracassos", conta o intérprete do apaixonado Thomaz, de "Além do Horizonte".
Escalado para reforçar o elenco adulto da atual trama das sete, Alexandre assume que a estética cinematográfica e o estilo do texto de Carlos Gregório e Marcos Bernstein são uma novidade bem-vinda para a tevê. "Faço novelas há muito tempo e acho que renovar e correr riscos é importante", analisa.
Natural de Santos, litoral paulista, Alexandre mudou-se, aos 18 anos, para São Paulo, na ânsia de ganhar a vida como ator. Logo encontrou seu espaço no Centro de Pesquisa Teatral, grupo dirigido por Antunes Filho. Na tevê, a estreia aconteceu como protagonista de "Guerra Sem Fim", exibida pela extinta Manchete em 1993, onde fez par romântico com Julia Lemmertz os dois casaram-se no mesmo ano e estão juntos até hoje.
Em 1994, foi contratado pela Globo, onde participou da minissérie "Incidente em Antares" e, em seguida, de "Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados". O bom desempenho chamou a atenção de Jorge Fernando e Silvio de Abreu, que o escalaram para uma participação em "A Próxima Vítima", de 1995. "Foi tudo muito rápido, entrei no capítulo 100, a novela estava 'pegando fogo'", lembra.
Depois de passar por vários núcleos dentro da emissora e encarar papéis de diferentes forças, aos 47 anos, Alexandre se mostra orgulhoso da história que construiu dentro da televisão. "Sou comprometido com o que faço e respeito meus colegas de trabalho. Acho que isso faz muita diferença quando você está em um local que preza pela coletividade", ressalta.
Cheia de mistério e pautada pela busca da felicidade, a trama de "Além do Horizonte" se distancia do estilo mais clássico dos folhetins. Isso o instigou a participar da produção?
Com certeza. A novela fala de algo muito latente na sociedade atual, essa tática de romper com laços e compromissos já estabelecidos e ir na busca por novas motivações e satisfações. Todo mundo passa por isso em alguma época da vida. E meu personagem, embora esteja em um núcleo menos aventureiro, tem esse dilema todo ao se reaproximar do grande amor de sua vida. Ele está em um momento complicado, com o casamento em crise e acredita que está na hora de romper com tudo. A história dele dentro da trama é muito bem definida e me empolgou. Gosto do que está indo ao ar, e olha que aceitei o convite sem nem saber ao certo o que eu iria fazer.
Como assim?
Waddington (Ricardo, diretor de núcleo) me ligou falando sobre a novela, que seria uma aposta arriscada da Globo para o horário das sete e que gostaria muito que eu fizesse parte disso, mas que, infelizmente, naquele momento ele não tinha muitos detalhes do personagem para me dar (risos). Eu ri, pensei e aceitei o convite.
No caso de, ao longo do trabalho, você não gostar do papel, não é frustrante passar os nove meses de duração de uma novela fazendo algo que não o agrada?
É bastante (risos). Mas aí você precisa ser profissional. Aí é que entra a vocação e o respeito que você tem pelo trabalho e pelos colegas que estão envolvidos. E novela é algo surpreendente até para quem está acostumado. No sucesso ou no fracasso, cada dia nos bastidores é único. A chegada de um novo roteiro pode fazer com que aquela história que estava ruim fique maravilhosa ou que o que estava "bombando" perca o sentido. É preciso ficar atento. Não se pode descansar nos "braços" do sucesso e muito menos se sentir derrotado nos momentos de crítica. Até o último capítulo tudo pode acontecer. E assim, mesmo sem escolher os trabalhos, me sinto um cara de sorte, tenho feito coisas muito divertidas.
A tevê, geralmente, enquadra atores em perfis muito parecidos de personagens. Assim como o Cadinho de "Avenida Brasil", o Thomaz também flerta com a comédia e é disputado por mais de uma mulher. Como você faz para não se repetir entre uma trama e outra?
Acho que a mesma história pode ser contada diversas vezes de formas diferentes. Muda o olhar do autor, do intérprete e do diretor. É claro que já fiz personagens semelhantes, todo ator passa por isso. Mas, ao longo dos capítulos, você vai descobrindo coisas que, naturalmente, vão aumentando as diferenças. Ao mesmo tempo que em um belo dia você recebe uma ligação de alguém te chamando para fazer um Jacques Leclair da vida (do remake de "Ti-Ti-Ti", de 2010) ou um sujeito complexo e dramático, como o Raul, de "Caminho das Índias". No caso do meu trabalho atual, acho que as comparações com o anterior são apenas teóricas. Na prática, são tipos bem diferentes.
Por quê?
Pelo modo como o trabalho se desenvolveu. A inspiração para o Thomaz veio de um processo muito pessoal, de uma busca interior. Nenhum personagem tinha me chamado a atenção para essa possibilidade de quebrar paradigmas. É claro que assisti a filmes, séries e li livros sobre o tema, mas, sobretudo, o personagem surgiu através das lembranças que tive dos momentos onde rompi o que estava vivendo para ir atrás de outras possibilidades.
Entre tantos personagens, você consegue eleger algum que represente uma ruptura artística dentro de sua carreira?
São muitos fatores que definem a importância de um papel dentro de uma trajetória. Estou na tevê há exatos 20 anos. Fiz personagens maravilhosos em produções de repercussão restrita. Da mesma forma que tive papéis menores em tramas de muito sucesso. Tem um personagem que pouca gente lembra, o Plácido de "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes", que me marcou muito. Era o retrato de um homem que existiu, um herói da história do Acre, um cara de uma importância enorme para o povo daquela região. O tipo de interpretação que me foi pedida, a caracterização e as gravações me revelaram um novo jeito de fazer tevê, algo mais próximo da arte mesmo.
Você vem de uma safra de trabalhos de apelo bem popular na tevê. É uma preferência sua?
Não. Até porque é impossível prever o que se tornará popular ou não. Já tive personagens que antes da novela estrear eu achei que fossem ser um sucesso e nada aconteceu. E o legal é ser surpreendido. Por exemplo, acho que "Ti-Ti-Ti", além de ter sido uma novela de êxito, me deu a chance de fazer algo muito inusitado. O Jacques era espalhafatoso, egocêntrico e mesmo assim fez muito sucesso com as crianças, um público relativamente novo para mim. Fiquei surpreso ao andar nas ruas e ser abordado por crianças cantando a música de abertura da novela para mim (risos).


