São Paulo, 23 (AE) - Há 42 anos, o diretor José Renato e a atriz Miriam Mehler fizeram sua primeira - e brilhante - parceria artística. Ela estreando profissionalmente no papel de Maria, em "Eles não Usam Black-Tie", primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, ele na direção da histórica montagem do Teatro de Arena, do qual foi um dos fundadores.
Agora ambos voltam a estar juntos no palco do Teatro da Cultura Inglesa, ele como diretor, ela como protagonista da peça "Visão Cega", do irlandês Brian Friel, que estréia sábado, às 20h30. Francarlos Reis e Oswaldo Mendes completam o elenco da montagem do texto desse autor inédito no Brasil, que os críticos londrinos chamam de Chekhov irlandês.
"Foi o Paulo Francis quem despertou a minha atenção para o texto; num artigo ele falou sobre a profunda impressão que a peça lhe havia causado", diz José Renato. "A dramaturgia irlandesa é muito rica, inteligente, tem uma longa história e autores importantes como Shaw, Wilde, Singer."
Nascido em 1929, na Irlanda no Norte, Brian Friel começou escrevendo para o rádio e, no teatro, alcançou seu primeiro grande sucesso internacional em 1964, com "Philadelphia, here I Come", peça sobre imigração encenada na Broadway. Atualmente, com várias peças no currículo, Friel é um autor de talento reconhecido e vem sendo considerado um representante do chamado "novo humanismo".
"Visão Cega", história inspirada num caso narrado pelo neurologista Oliver Sacks, estreou em Dublin em 1994 e, dois anos depois, na Broadway, com Jason Robards, Catherine Byrne e Alfred Molina no elenco, 30 anos depois do primeiro sucesso de Brian Friel na Broadway.
Miriam Mehler vai interpretar a personagem Molly Sweeney
uma mulher cega desde os 10 meses de idade, que vive numa pequena cidade da Irlanda. Visão cega é o nome científico de um tipo de visão parcial, de vultos, conseguida com operação. Essa cirurgia pela qual Molly (Miriam) passa está no centro da trama criada por Brian. "A tradução é de João Bethencourt e nós trocamos o título original, Molly Sweeney, o nome da protagonista, por um mais próximo da nossa platéia", explicou o diretor.
"Curiosamente, foi José Renato quem sugeriu ao Guarnieri a troca do título original de Black-Tie, que era "O Cruzeiro lá no alto", lembrou Oswaldo Mendes. Sem dúvida, José Renato tem intuição não só para bons títulos como para descobrir bons textos. Afinal, além de ter encenado Black-Tie foi também responsável pela montagem de Rasga Coração, outro marco na história do teatro brasileiro, dessa vez da abertura política e do fim da censura.
"Molly é uma cega muito especial, porque é feliz na sua condição", diz Miriam. Molly, que é massagista, é apresentada a Frank (Francarlos Reis) por Rita, sua melhor amiga. "Eles se apaixonam e sua vida se torna ainda mais plena", afirma a atriz.
"Frank é um visionário, um homem apaixonado por causas insólitas", diz Reis. Uma espécie de Quixote contemporâneo, ele é capaz de deslocar-se para a Noruega a fim de salvar baleias ou criar cabritos iranianos na Irlanda."Ele se apaixona pela Molly
certamente fascinado por essa criatura especial que ela é - assim como os texugos, as abelhas", ressalta Reis. E decide ajudá-la, claro. Ele passa a pesquisar tudo sobre cegueira, convence-a a operar-se e a acompanha na primeira consulta com um oftamologista de renome internacional (Mendes), que há muitos anos se isolou naquela cidade. "Meu personagem entra no consultório carregando um verdadeiro dossiê sobre o caso de Molly", informa Reis.
"O médico foi um profissional brilhante na sua juventude e fazia parte de uma equipe de notáveis, um quarteto formado por um alemão, um japonês e um americano, chamados a operar em vários países", diz Oswaldo Mendes. Um trauma profundo, que o espectador conhecerá a tempo, afastou-o da profissão por um longo tempo. Finalmente abriu um consultório naquela pequena cidade da Irlanda, onde vive mergulhado nas lembranças e no álcool.
"Molly é um caso típico de paciente que pode recuperar parte da visão, porém a medicina só registra até aquele momento 20 casos de cura", salienta Mendes. "Ele vê naquela mulher a chance de recuperar sua reputação, de sair da escuridão na qual está mergulhado, de ser o responsável pelo 21.º caso."
"O fascinante nesse texto é que a tradicional ação não ocorre no palco, mas na imaginação da platéia", avisa José Renato. Tudo porque os personagens não contracenam em "Visão Cega", mas dão depoimentos como se estivessem num tribunal."A idéia central da peça transcende o drama individual de adquirir ou não visão, embora exista a história realista de Molly ", diz José Renato. Numa camada mais profunda, a discussão gira em torno da imposição de padrões e valores nas relações cotidianas, mas remete às imposições culturais muito mais amplas. "O tema da globalização também é tratado em cena", recorda José Renato.
Num de seus arroubos, o personagem Frank retira de sua toca uma família de texugos para salvá-los de uma inundação e leva-os para um morro. O problema é que os bichos não se adaptam e voltam à antiga casa, que está destruída. Algo semelhante ocorre com Molly. "A peça remete à invasão de uma cultura por outra, ao desrespeito às diferenças profundas de pensamento", afirma José Renato.
A inteligência do autor está em propor essa discussão a partir de um comportamento em princípio irreprovável. Como condenar alguém que luta para fazer ver um cego? "Visão Cega" quer dar ao espectador a sabedoria da dúvida. Serviço - "Visão Cega". Drama. De Brian Friel. Direção de José Renato. Duração: 1h40. De quinta a sábado, às 20h30; domingo, às 19 horas.R$ 20,00 (quinta); R$ 25,00 (sexta e domingo); R$ 30,00 (sábado). Teatro Cultura Inglesa. Rua Deputado Lacerda Franco, 333, tel. 814-0100. Até 30/5. Estréia sábado.