O vírus da Aids é mais forte do que a proteção genética que torna algumas pessoas refratárias à infecção, segundo duas equipes médicas, uma norte-americana e outra francesa.
Essas equipes científicas se referem, no último número de abril da revista médica britânica ‘‘The Lancet’’, ao caso de dois pacientes - um norte-americano tratado por uma hemofilia severa (falecido) e o outro um francês homossexual - contaminados pelo HIV, apesar de uma predisposição genética que supostamente os protegia.
Esta característica genética, descrita no ano passado, é observada entre as pessoas que dispõem de um par de genes ‘‘CCR-5’’ alterados, herdados de seus dois respectivos pais. São chamados de homocigócitos por esse defeito que cada qual possui em duplo exemplar. Esta particularidade genética homocigótica afeta 1% dos brancos (caucasianos), enquanto a herança incompleta (heterocigótica) está mais difundida.
O CCR-5 é um importante co-receptor da entrada do vírus nos glóbulos brancos (linfócitos).
Para os dois pacientes pesquisados, a queda dos linfócitos CD4, peça estratégica da defesa do organismo, foi rápida. Esses casos podem ser explicados por uma infecção devida a uma variante do vírus que não utiliza esse co-receptor como porta de entrada, segundo os autores (equipes de Thomas O’Brien, Bethesda e dos drs. Ioannis Theodorou, Christine Katlama e Christine Rouzioux, CNRS-INSERM, Paris).
Anteriormente, uma equipe australiana havia lançado um alerta, ao informar este ano sobre um caso de contaminação em um homocigótico, na revista ‘‘Nature’’.
Estas observações confirmam as incitações à prudência lançadas pelos cientistas quando se descobriu esta proteção genética das pessoas que poderiam se acreditar imunes ao vírus. ‘‘Não se deve acreditar que os portadores do defeito genético protetor sejam resistentes a todas as cepas de vírus que circulam no mundo e que podem deixar de lado a prevenção’’, comentou o cientista francês Luc Montagnier, que descobriu o vírus da Aids em 1983.

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