Disco revela obra do compositor
e instrumentista cearense que está
redirecionando o violão brasileiro

DivulgaçãoFrancisco Araújo: disco já o coloca entre as figuras mais importantes do moderno violão brasileiroRanulfo Pedreiro

Quando o violonista Canhoto da Paraíba completou 70 anos, no final de 97, convidou o primo para uma apresentação no Teatro da Umes - União Municipal de Estudantes Secundaristas de São Paulo. Francisco Araújo, o parente, subiu no palco acanhado, receoso com a reação do público. Mas o show esquentou, e Araújo foi exibindo virtuosismo no violão, até que a platéia ficou inquieta.
- Como é que um cara desses ainda não gravou? - gritou um ouvinte, no meio da música.
- Como não? Pois ele vai gravar sim - respondeu, em pleno show, Marcus Vinícius, diretor artístico do selo CPC-Umes.
Ignorando o convite do diretor, Francisco Araújo levou o solo até o final, pensando que a origem da discussão tivesse motivos etílicos. Não tinha. O convite de Marcus Vinícius era sério, e a história foi confirmada no encarte do disco ‘‘De Sertões & Serestas’’, o primeiro de Araújo por um selo com distribuição nacional.
O CD foi lançado dia 18 no Ática Shopping, em São Paulo, pelo CPC-Umes. O lugar lotou de curiosos e, só no lançamento, foram vendidos cerca de 250 exemplares. A agitação em torno de Francisco Araújo faz sentido. Se até há pouco tempo ele era um instrumentista e compositor desconhecido, o disco já o coloca entre as figuras mais importantes do moderno violão brasileiro.
Suas músicas trazem ótima qualidade, são de difícil interpretação - nesse quesito Araújo também armazena pontos - e revelam um compositor com estilo definido. Como instrumentista, ele passeia com facilidade por ritmos variados como choro, modinhas, serestas, valsas, apresentando influência jazzística, das escolas espanhola e brasileira de violão, e ainda acumula traços da música contemporânea.
As composições respaldadas por esse amálgama estético não fluem por acaso. Francisco Araújo estudou muito para delinear seu próprio rumo e recusou convites com interesses comerciais decidido a divulgar suas próprias obras.
A introdução à música ocorreu por intermédio do pai, o músico Estevão Cipriano de Araújo, que mantinha um conjunto de choro. A família se deslocou do Ceará para São Paulo, onde Francisco começou a tocar cavaquinho, aos nove anos. Aos 12 já cantava mas, limitado por um calo nas cordas vocais, foi orientado pelo médico a se restringir ao instrumental. Com 13 anos o rapaz já dedilhava o violão e era aluno de Aimoré, parceiro de Garoto.
‘‘O Aimoré foi meu segundo pai no violão. Ele dizia que iria me fazer um violonista, e eu pagaria quando pudesse, pois não tinha recursos’’, comenta Araújo. Já em 1973 o músico chamou atenção no Festival de Campos do Jordão e em 1974 foi contratado pelo MEC para participar do projeto Barca da Cultura, se apresentando em várias cidades das regiões Norte e Nordeste.
Francisco Araújo se formou no Conservatório Musical de São Caetano do Sul e em 1976 foi contratado como professor de violão erudito no Conservatório de Tatuí, um dos mais renomados no Brasil. No ano seguinte venceu o 1º Concurso de Obras para Violão promovido pela Funarte, como compositor, com a ‘‘Valsa Virtuosa nº 1’’. A música, de execução dificílima, foi editada pela Columbia Music nos Estados Unidos.
A maturidade do compositor despontou em 1985, quando ingressou no Curso de Música de Santiago de Compostela, dirigido pelo mestre violonista Andrés Segóvia. Araújo estudou seis meses com Segóvia. ‘‘Ele me disse: ‘Um artista se faz pela originalidade, e você é um dos mais originais. Siga sozinho, pois sua obra vai marcar um novo caminho na história da guitarra’’’, ressalta Araújo. O instrumentista estudou também harmonia funcional com o alemão Koellreuter.
‘‘Meu trabalho de composição tem duas vertentes que reúnem cerca de 200 músicas. A brasileira, que envolve cerca de 45 valsas, chamadas Valsas Românticas, que mostram minha convivência com o choro, e as peças com técnica erudita’’, acrescenta Araújo.
No lançamento, o compositor optou por obras com sotaque brasileiro. A grande ausência do disco é justamente a ‘‘Valsa Virtuosa nº 1’’, que não foi gravada por um contratempo com a editora. A música foi tocada para a delegação brasileira durante a Copa de 78, mas Francisco Araújo não estava presente porque não tinha dinheiro para a passagem.
‘‘De Sertões & Serestas’’ abre com ‘‘Na Magia do Frevo’’, onde o virtuosismo e o estilo personalíssimo de Araújo já se destacam - a música é dedicada ao primo, Canhoto da Paraíba. O instrumentista também inseriu duas variações: ‘‘Rapsódia Nordestina’’, em que passeia por obras de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; e ‘‘Variações sobre um tema de Ernesto Nazareth’’, onde o mote é ‘‘Odeon’’. A modinha ‘‘A Saudade é um Poema’’ é dedicada a Dilermando Reis e ‘‘Quando Havia Sertão’’ a Inezita Barroso.
O violonista pretende agora divulgar o disco e continuar o curso de Violão na MPB, que ministra em algumas faculdades de São Paulo. Francisco Araújo também está escrevendo um livro sobre a história do violão no Brasil, em que refuta a teoria de que o instrumento foi trazido pelos portugueses.
‘‘Eles aderiram ao violão, os ciganos é que o introduziram no País. O próprio José de Alencar atesta o fato em ‘O Guarani’. O violão nasceu na Espanha, não em Portugal’’, argumenta.
Francisco Araújo também se preocupa com o futuro do instrumento: ‘‘A sobrevivência do violão vai depender de sua conotação latina e brasileira. Há preconceito contra a música daqui por parte dos solistas que estão na Europa’’, acusa.
‘‘De Sertões & Seresta’’ é um disco que revela o rumo escolhido por Araújo. Nele, talento, técnica e teoria se equilibram em composições de qualidade. O lançamento tem distribuição pela Eldorado, e em breve deve estar nas lojas de todo o País.

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