O italiano Nicoló Paganini (1782-1840) assombrou gerações de intérpretes com sua obra ''24 Caprichos para Violino Solo, op. 1''. Escrita inicialmente apenas para treinar a técnica do instrumentista, tornou-se uma das peças mais importantes do compositor, provavelmente a de mais difícil execução de seu repertório.
O mineiro Edson Scheid, um garoto de 19 anos, ''domou'' a complexidade da composição gravando-a em CD no ano passado. Com a proeza, tornou-se o primeiro brasileiro a registrá-la em disco. E um dos dez no mundo, segundo o violinista londrinense Roney Marczak, que este ano integra a comissão de organização do 24º Festival de Música de Londrina. A peça tem 1h15 de duração.
Scheid apresenta-se hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde como uma das principais atrações do FML. Para privilégio da platéia, executará os ''Capricci'' de Paganini. Filho de Edson Queiroz de Andrade e Valéria Gazire, ambos músicos, ele toca violino desde os 3 anos de idade. Mora em Belo Horizonte, mas viaja de 15 em 15 dias ao Rio de Janeiro para ter aulas particulares com Paulo Bosísio, um expoente do instrumento.
No currículo, ostenta importantes prêmios nacionais: 1º lugar no II Concurso Nacional de Violino Paulo Bosísio, (RJ, 1992); 1º lugar no XII Concurso Jovens Instrumentistas Brasil de Piracicaba (Piracicaba, SP, 1993), onde ainda recebeu o prêmio de melhor intérprete da música de Ernest Mahle e o Prêmio Revelação do concurso; 1º lugar no 9º Concurso Nacional de Cordas Paulo Bosísio (Juiz de Fora, MG, 2001); e 1º lugar no II Concurso Nacional para Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica da Bahia (Salvador, BA, 2003).
Com tais credenciais, Scheid foi estimulado pelo professor a encarar em estúdio os ''24 Caprichos''. O registro, bancado pelo selo Carmin, tornou-se um ''hit'' no meio erudito. Mas a obra continua sendo um desafio para qualquer músico. Sabe-se que professores costumam ensiná-la para iniciados com o objetivo de aperfeiçoar-lhes a agilidade na mão esquerda (para destros) em instrumentos de cordas.
Críticos especializados costumam ressaltar que, ao ouvir as gravações desta composição (quando interpretada por bons músicos), fica difícil acreditar que exista ali apenas um instrumento tocando tal a pluralidade de cordas simultâneas. Bem, o Festival oferece hoje à noite uma oportunidade única para conferir um virtuose executando-a ao vivo.
O que você vai tocar em Londrina?
O concerto vai ser o repertório de meu CD ''24 Caprichos de Paganini'', que lancei no ano passado. É a obra mais importante do compositor italiano. É uma peça mirabolante, de dificílima execução, que exige muito malabarismo técnico. Por causa dela, o Paganini chegou a ser acusado de fazer pacto com o diabo.
Você é o primeiro violinista brasileiro a gravar essa peça. Quando se aproximou dela?
Comecei a trabalhar nos ''Caprichos'' em 2001, sob orientação de meu professor Paulo Bosísio, que é um músico muito conceituado no País. Na época eu nem pensava em registrar em disco, era só para aprender a tocar. Depois de dois anos, ele sugeriu a gravação.
Quando você começou a tocar violino?
Comecei com 3 anos de idade, mas com 2 anos eu já pedia o instrumento para meu pai. Comecei numa escola nos Estados Unidos, para onde minha família se mudou por causa do doutorado de meu pai. Tive influências musicais em casa, porque ele também é violinista e minha mão é pianista. Quando eu estava com 4 anos, voltamos ao Brasil e passei a estudar com meu pai. Aos 14 anos, virei aluno do Paulo Bosísio, no Rio de Janeiro.
Você já tocou no exterior?
Fiz minhas primeiras apresentações no ano passado, na cidade de Bremen, na Alemanha. Fui convidado para fazer parte de uma Orquestra Sinfônica Jovem, mas a pedido do maestro acabei tocando os ''Caprichos'' do Paganini em algumas ocasiões.
O CD foi recebido como um ''acontecimento'' na área da música erudita. Seu dia-a-dia mudou muito a partir do lançamento?
Dei muitas entrevistas para jornais, rádios e TVs. A agenda de concertos também aumentou desde o ano passado. Tenho feitos concertos como solista e também recitais em duo com minha mãe, além de tocar com orquestras. No mês passado, aliás, estive em Curitiba tocando com a Orquestra Sinfônica.
Você costuma participar com frequência de festivais de música?
Já participei muito como aluno, sempre acompanhando meu professor. Onde ele vai eu vou junto para ter aulas. Gosto do ambiente desse tipo de evento, com várias pessoas fazendo música juntos.
Até quando você acha que um músico deve manter a relação aluno-professor?
Quando achar que está auto-suficiente, que atingiu a maturidade. E isso é muito variado, depende de cada pessoa. No meu caso, tenho muito ainda a aprender. A impressão que dá é que o aprendizado em música é um processo infinito, contínuo. Quando não tiver mais o professor, vai vir a necessidade da pesquisar conta própria.


Serviço:
- Concerto com o violinista Edson Scheid. Hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 6,00 (estudantes pagam meia-entrada). Ponto de Venda: no local, a partir de 15 horas.

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