VIRILIDADE MAGNETIZANTE
A companhia belga Win Vandekeybus & Ultima Vez extasia o público em suas apresentações em Londrina
ReproduçãoBailarinos do Win Vandekeybus & Ultima Vez: proposta une dança, teatro, música e cinemaFrancelino França
A fenomenal obra de Michelângelo ‘‘Davi’’ (1501/04) simbolizava duas principais virtudes do renascimento florentino, a coragem e a fortaleza. Essas duas virtudes compõem o espetáculo ‘‘In Spite of Wishing and Waiting’’, da companhia belga Win Vandekeybus & Ultima Vez que fez três apresentações no Festival Internacional de Londrina (Filo), na semana passada.
O triunfo desta montagem está na presença viril e magnetizante dos 11 bailarinos, nos remetendo à figura mitológica criada por Michelângelo. Os atores-bailarinos deram uma demonstração de que o homem foi predestinado à dança.
Quem poderia imaginar que ‘‘In Spite of Wishing and Waiting’’ seria tão extasiante. Os chutes iniciais nas paredes do teatro prenunciavam a força e a pujança daquilo que seria o espetáculo. Os atores-bailarinos se transformaram em cavalos angustiados, quase alados, tragicamente belos. A proposta de multilinguagem do coreógrafo e bailarino Win Vandekeybus agregou música, teatro, dança e cinema. O texto desafiou a platéia a compreender vários idiomas: inglês, francês, italiano, espanhol e árabe. A coreografia das palavras foi reveladora: ‘‘Eu posso ser qualquer um.’’
‘‘In Spite...’’ em nenhum momento é convencional, chega a ser subversivo, até por incluir um bailarino deficiente visual no elenco. Nessa encenação arrebatadora, Win Vandekeybus coloca o desejo como uma porta aberta para o infinito, onde tudo pode emergir, incluindo imagens evocando a infância. No princípio do espetáculo, duas bombas estouram no palco. São sinais do desejo explodindo, sem controle, sem entendimento. Uma figura selvagem, primitiva e indomável simbolizou esses desejos secretos que residem em algum canto escuro da mente.
‘‘In Spite...’’ põe em evidência nossa necessidade de carícia. É imprescindível essa troca para nos impulsionarmos. Isso foi traduzido pelo stop-motion coreográfico. Os movimentos precisos dos 11 dínamos, num verdadeiro efeito dominó, era desestruturado e independente. Durante a inesquecível apresentação da companhia no Filo, o público ficou sem respiração, ansioso pelo próximo movimento. A coreografia em que eles surgiram com saias foi um contraponto perfeito à extrema virilidade dos atores-bailarinos. Uma referência à antiga dança ritual da Ordem dos Derviches. A leveza das plumas sob o palco em oposição à massa corporal dos homens.
Várias sequências impressionaram pela inventividade, beleza plástica e pela inusitada utilização do palco, como a mise-en-scSne com um farol. As luzes surgiam uma a uma, até todos se iluminarem. Um movimento deflagrando o outro. Outra cena inesquecível foi a coreografia das laranjas cortadas ao meio. Em duplas insinuantes, os homens transbordavam sensualidade. O espetáculo é inteiramente pontuado. Um dos recursos apresentados nessa pontuação foi um filme, rodado em 16 mm, funcionando como entreato, tal qual acontecia nas antigas óperas. No filme surreal, um homem vende gritos. Mas é na dança que Win Vandekeybus nos aponta novos rumos.
O espetáculo nos antecipa as trilhas pelas quais a arte caminha. Cada vez mais as montagens fundem overdose de informações, com incrível apelo visual, conseguem derrubar a barreira do idioma, pontuando tudo isso com virtuosismo musical. A encenação idealizada por Win Vandekeybus é uma visão transformada do mundo físico. Ele brinca com a incerteza, transformando os bailarinos num corpo único, orgânico. Propositalmente ou não, ele trava um diálogo com a física quântica, em que cada linguagem contém em si mesma todas as demais.

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