Viriato rompe barreiras
De Curitiba
O artista plástico Edilson Viriato, que estava no Chile acompanhando um grupo de colegas de trabalho que têm aulas em seu atelier, para participarem de um workshop em Santiago, chegou ontem em Curitiba, troca de malas e hoje estará voando para a Espanha, com destino à cidade de Cadiz, no sul do país. Irá participar da Mostra Brasil Cadiz de Artes Plásticas, evento paralelo do Festival Ibero-Latinoamericano de Teatro.
Dos seis artistas brasileiros, Viriato é o único do Sul do País. Os demais são de Minas, São Paulo e Ceará. Estou indo porque vou pintar na parede de um forte construído no século passado, diz ele. Ficará durante uma semana e vai aproveitar a estada para promover o que chama de mostra brasileira de cartazes: uma coleção de impressos produzidos pela Fundação Cultural de Curitiba e Secretaria de Estado da Cultura.
O artista tem um grande espaço à sua disposição. Nele fará seus desenhos que saem das telas e invadem as paredes, extrapolando as molduras. Esse trabalho que une o sacro e o pagão, numa mistura de prazer e dor, vida e morte, tem um fundo religioso dualístico a transcendência espiritual e terrena, como se tudo estivesse preso a leis atemporais, pairando acima dos títeres humaos.
Este trabalho já correu mundo. Foi visto em Curitiba no Museu Metropolitano de Arte, mas andou também por Genéve, na Suíça, e em Cuba. Edílson, porém, não se restringe apenas a esses países. Até agora suas obras passaram por quase toda a Europa, sempre chamando a atenção da críica.
Além dos desenhos, os espanhóis poderão apreciar ainda a série Os Brutos Também Amam casacos enormes que mantém a idéia da religiosidade e do profano e chamam a atenção para o perigo eminente da Aids. Como os portadores do vírus, já na fase terminal, ficam esqueléticos, as roupas sobram em seus corpos. O tamanho exagerado dos casacos dão essa leitura, mas as vestes podem
ser vistas ainda como se fossem batinas.
A instalação das roupas, colocadas em sequência, tem uma ligação sutil com a infância religiosa de Viriato ele foi coroinha. Ficou na memória as batinas repousadas em cabines sempre da mesma forma, sem mudanças. Os casacos repetem a mesma colocação, mas trazem impressos outra realidade.
Numa alusão a garotos de programa, esses casacos têm código de barra, anúncios de jornais oferecendo sexo, uma imagem de São Sebastião misturada a dois homens se beijando. A figura do santo está ali para que proteja essas pessoas, explica o artista.
Há anos Viriato mostra em suas obras o horror da Aids, pelas mais variadas linguagens. Ele concorda: Todo meu trabalho fala do sagrado, do profano e da Aids. Essa é uma das razões que o levou a expor nos países mais diversos, além de correr o Brasil.
Ele costuma viajar muito, mas tem um olhar um tanto enviesado com Curitiba.
Afirma que aqui é boicotado, enquanto folheia jornais, revistas, catálogos de exposições do exterior. Detém-se no The New York Times que faz uma citação a respeito da exposição que levou a Cuba. Diz, saboreando as palavras: Sou movido a desafios. Se a cidade onde vivo me boicota, vou em frente até com mais alegria.





