VIRGÍNIA ULTRAPASSA FRONTEIRAS MUSICAIS
Nelson Sato
De Londrina
A cantora Virgínia Rodrigues nasceu estigmatizada. Caetano Veloso a apadrinhou, o que significa quase uma maldição para muitos setores da crítica. Depois de estrear em disco interpretando canções de Dorival Caymmi, Ary Barroso, Djavan e de seu próprio mentor, ela chega ao segundo trabalho pronta para alavancar a carreira no exterior.
Nós, seu novo CD, foi lançado dia 1º de fevereiro nos Estados Unidos. Só agora chega ao mercado brasileiro. A gravadora Natasha atribui a defasagem ao Carnaval, cuja proximidade e festejos ofuscariam o lançamento do disco por aqui. Lá fora, a cantora baiana pode se tornar o próximo grande estouro de mercado dentro da categoria world music.
Move-se já com desenvoltura com shows agendados nas principais capitais norte-americanas e européias incluindo as cidades de Boston, New Orleans, Miami, Paris, Londres e Bruxelas. A turnê internacional deve acabar em fins de maio ou começo de junho, quando finalmente retorna ao Brasil. Nós reúne 12 faixas calcadas nos cantos dos blocos-afro do Carnaval da Bahia.
A produção é de Celso Fonseca. O arranjo de cordas e sopros, um dos trunfos do trabalho, ficou por conta de Eduardo Souto Neto. O percussionista Robertinho Silva faz participação especial. O encarte, que traz fotos antigas de ruas de Salvavor, inclui ilustrações de Caribé. A direção artística coube a Caetano, que ainda assina o texto de apresentação e faz um dueto vocal com a intérprete na canção Jeito Faceiro, de Jaupery e Pierre Onassis.
O conceito do álbum foi sugerido pelo compositor, embora várias músicas do repertório tenham sido pesquisadas e garimpadas por Virgínia. A intérprete, com sua voz vigorosa de meio-soprano, faz da faixa de abertura (Canto para Exú, de domínio público) seu cartão de apresentação repetindo duas frases e sobrepondo vocalises celestiais sobre os tambores.
Eleva o disco ao ponto máximo em Salvador Não Inerte (de Bobôco/Beto Jamaica), cujas batucadas vão e vêm amaciadas por um quarteto de cordas. Empolgante também é o samba-reggae Depois que o Ilê Passar (de Miltão), com participação do bloco Ilê Aiyê e citação de Ilê É Ímpar (Aluísio Meneses/Alberto Pitta).
Como nota Caetano no texto de apresentação, Virgínia incluiu três composições de Edil Pacheco e Paulo César Pinheiro, autores que não pertencem a blocos-afro de Salvador. São elas: Malê de Balê, Afrequetê e Ojuobá. Pelos títulos, entretanto, fica claro a coesão temática do repertório. Completam o disco as faixas Uma História de Ifá (de Ytthamar Tropicália/Rey Zulu), Raça Negra (Walmir/Gibi), Deus do Fogo da Justiça (Osvaldo Brown Almeida), Mimar Você (Alaim Tavares/Gilson Babilônia) e Reino de Daomé (Tonho Matéria).
Apesar do viés étnico-regional limitar a universalidade dos temas das músicas, a sonoridade que o reveste atravessa fronteiras.





