A carreira de Camila Morgado na tevê começou com personagens extremamente densos e dramáticos. Tanto que hoje, na pele da sofisticada Noêmia de ''Avenida Brasil'', a atriz respira aliviada por mostrar que pode se aventurar em interpretações mais leves e cômicas.
Na trama de João Emanuel Carneiro, Noêmia é uma das três mulheres de Cadinho, papel de Alexandre Borges. O empresário tem três famílias: uma com Noêmia e outras duas com Alexia e Verônica, vividas por Carolina Ferraz e Débora Bloch.
''O que é bacana é que a novela tem uma história de vingança, um tema pesado. E o nosso núcleo é o mais leve e ajuda a dosar essa carga. Mesmo sendo também uma discussão quente, já que o cara tem três mulheres'', avalia Camila, que tem se surpreendido com as coisas que escuta nas ruas em função desse papel. Principalmente das mulheres. ''Outro dia, uma me contou que tem uma filha de 13 anos e descobriu que o marido tem outras duas filhas com a mesma idade. E com uma das amantes, ele também tinha essa relação de família. Não é só nas novelas que isso acontece'', pontua.

Seu último trabalho em novelas, como a Malu de ''Viver a Vida'', também foi cômico. Essa coincidência preocupou você?
Não, porque não existem muitas semelhanças, além de serem cômicos, claro. Mas as duas personagens são muito diferentes. Malu era mais espevitada. Até o tipo de humor era outro. Agora, a gente faz algo mais sutil. Trabalhamos com uma proximidade maior com a realidade. A Noêmia é uma esposa que gosta da família, do marido, do filho, que valoriza esses laços. É uma mulher bem sofisticada. Não que a Malu não fosse, mas são perfis bastante distintos.
Até ''Viver a Vida'', você tinha feito três minisséries, uma vilã em ''América'' e se destacou no cinema com ''Olga''. Essa trajetória de trabalhos mais densos, na sua opinião, distanciava o público de você?
Esse é um ponto bacana porque, sim, chegou uma época em que eu me preocupei com isso. E foi exatamente depois de ''América''. Vi que as pessoas sempre vinham falar comigo com muito distanciamento, um certo cuidado. Como atriz, queria estar aberta para fazer outros gêneros e receber mais convites também. Todo mundo me via como a artista que sabia chorar, que era dramática, mas eu não era só isso. Então, quando notei que a tevê estava formando esse perfil para mim, fiquei mais cautelosa. E, logo em seguida, recebi um convite da Marília Pêra para fazer a peça ''Doce Deleite'', ao lado do Reynaldo Gianecchini. E era uma comédia. Ali isso começou a mudar. Ficamos um bom tempo em cartaz e, nesse período, recebi o convite do Manoel Carlos para fazer ''Viver a Vida''. E o chamado veio do Manoel Carlos, com quem eu nunca tinha trabalhado, e não do Jayme Monjardim, que já tinha me dirigido antes.
Hoje, você sente que a comédia aproximou mais o público de você?
A abertura é outra, sem dúvida. Mas as pessoas sempre acreditam que os papéis cômicos atraem mais o público para os atores. E ''A Casa das Sete Mulheres'' foi um grande espanto para mim. Era uma minissérie e, mesmo assim, eu era muito parada nas ruas. Achava estranho porque não tinha um apelo popular. Era um papel com carga dramática grande e passava bem tarde. Antes, eu tinha essa impressão de que a comédia aproxima mais, só que interpretar a Manoela ali me mostrou que o público, na verdade, se identifica com questões humanas. Eles enxergam uma pessoa de carne e osso na tela, que sente dor, raiva, amor... O que a comédia traz é uma felicidade incrível. As pessoas chegam com muita alegria, jogam beijo, falam com a gente como se fossem amigas.
O assédio chega a incomodar você?
Não sei se a palavra certa é incomodar. Ainda não sei trabalhar isso. Na minha cabeça, o que faço é um serviço, assim como qualquer outra atividade profissional. Estou fazendo o meu trabalho. Então, não sei lidar com essa coisa de alguns nos colocarem acima do bem e do mal. Isso não combina com a minha personalidade. Se alguém vier assim, talvez me provoque algum tipo de estranhamento. Sou igual a todo mundo, faço as mesmas coisas.
Agora, esse é o seu segundo papel cômico seguido em novelas. Tem receio de passar uma fase mais voltada apenas para esse gênero?
A tevê é muito popular e tem um alcance muito grande. Era uma preocupação minha não ficar estereotipada como uma atriz dramática, o que estava se repetindo na minha trajetória. Mas ano passado mesmo fui chamada para fazer ''A Vida da Gente'' e não era uma personagem cômica. Só não fiz por conflitos de agenda. Agora, estou sem esse medo. Já tenho um currículo, as pessoas me reconhecem pelos meus trabalhos e acho que eles já estão equilibrados entre esses gêneros. Sem contar que, em ''Avenida Brasil'', não tem só humor.
Mas a discussão da poligamia é feita de maneira cômica...
Sim, mas essa é uma questão muito boa e que deve ser levantada mesmo. Tem homem que é monogâmico, mas e quem não consegue ser? Tem gente que precisa estar com mais de uma pessoa. Não que tenha de ser assim, não acho que deva ser uma regra, mas existem casos assim. Por que não falar sobre eles? As pessoas devem agir do jeito como elas se sentem bem. Isso, é claro, sem machucar o outro. Se você respeita seu espaço e não machuca o outro, está tudo lindo. Não sei se eu aceitaria isso, mas algumas mulheres poderiam aceitar. E homens também.
Os homens costumam se abrir com você nas ruas para falarem de infidelidades?
Eles me param, conversam comigo, mas não se abrem muito. Acho que essa é uma dificuldade masculina. As mulheres se soltam, contam infidelidades dos maridos e até delas. Mas os homens não. Uma vez, em outro trabalho na tevê, um cara me parou na ponte-aérea e me contou sua vida inteira. Virou um amigo até. Ator tem essa coisa de falar tanto da intimidade de um personagem que, às vezes, as pessoas se relacionam com você em um tom quase terapêutico. E ator entende mesmo um pouco da alma humana, do comportamento, não tem tanta moral. A gente interpreta sem julgamento e as pessoas se sentem mais livres para falarem.
Essa é sua primeira novela na Globo depois que a emissora resolveu não renovar mais o seu contrato. O que mudou?
Foi algo que eu não esperava na época. Eu era contratada há alguns anos e, de repente, não renovaram. Disseram que era uma nova política da casa. Acabou que vieram vários convites. Já estava em uma peça, apareceu outra que foi maravilhosa. E me chamaram no GNT para o ''Saia Justa'', enfim, comecei a fazer coisas que não imaginava que fosse fazer. Trabalhar em um ambiente em que você não está acomodado faz com que se torne mais criativo.
O SBT manifestou interesse em ter você no remake de ''Carrossel'' e a Record também queria você no casting. Por que não aceitou?
Achei que não seria prudente naquele momento sair de uma emissora e entrar logo em outra. Precisava parar, pensar e ver exatamente o que queria da minha vida e carreira. Sou atriz, comecei no teatro e eu também queria me ver nessa situação, me deu vontade de fazer outras coisas. O pessoal do GNT me chamou e fiquei muito feliz que isso tenha acontecido. As pessoas começaram a me ver não só como uma atriz, mas como uma atriz que desenvolve seu trabalho e que pensa, o que é muito legal. Comecei a ter outro posicionamento. No final, acho que foi positivo para mim.

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