São Paulo, 26 (AE) - O "Orfeu da Conceição", de Tom Jobim e Vinícius de Morais, é a transposição do mito grego para a favela carioca, assim como Gershwin transportou a tragédia de "Romeu e Julieta" para o bairro negro de Nova York, em "Porgy and Bess". Nos dois casos, o filtro modernizador foi a música negra. Tom Jobim, é verdade, compôs a música a pedido de Vinícius: não imaginou a peça. E, adiante, a música dos índios teria em sua obra importância crescente, coisa que não se nota na obra de George Gershwin.
Ainda assim, os pontos de contato são muitos, como expõe o violonista, compositor e arranjador Mário Adnet no CD "Para Gershwin e Jobim" (Indie Records; contatos com o artista pelo telefone 0--21-511-0793). É o quarto disco de Mário, originalmente financiado, com uso da Lei Rouanet, pelo Grupo Peixoto de Castro, agora distribuído comercialmente. Foi gravado em Nova York e no Rio, com músicos brasileiros e outros, norte-americanos, íntimos da música brasileira, como, entre muitos, o trombonista Jay Ashby, o trompetista Randy Brecker e o contrabaixista Eddie Gomez.
O time brasileiro também é de primeira linha - o pianista Hugo Fatoruso, o violonista Romero Lubambo, o percussionista Café, o clarinetista Dirceu Leite e o contrabaixista Nilton Matta, para citar alguns. Jobim - O arranjo quebrado de "Maracangalha", samba de Caymmi que Tom Jobim gravou em seu último disco, Antônio Brasileiro, é de Mário Adnet. Em "Para Gershwin e Jobim", o violonista fez coisa parecida com um original de George Gershwin, "I Got Rhythm". Resultou num samba balançadíssimo, com o violão de Romero Lubambo batendo no pulso de bossa e o contrabaixo de Nilson Matta fazendo, nos primeiros compassos, curiosa alusão a Ernesto Nazaré.
O outro original de Gershwin no disco é "Love Is here to Stay", que recebeu leitura radical de bossa nova e reinterpretação harmônica; aqui, Mário toca o violão e canta - muito parecido com Jobim - em dueto com Joana Adnet. De Jobim, apenas "Desafinado", primeiro sucesso do brasileiro nos Estados Unidos, como justifica o arranjador, na gravação de Stan Getz e Charlie Byrd. As demais composições são do próprio Mário Adnet, a não ser pelo "Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu.
Mário é um excelente compositor, como já mostrou, fartamente. No repertório escolhido para o novo disco, deixou-se ficar à sombra dos homenageados - mas é um tributo à inteligência do ouvinte o sutil sotaque jobiniano que usa na sua bossa-choro "Jobim in Heaven", um de grandes momentos do belo CD. (M.D.)

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