Violão para aprendizes e feiticeiros
Propor um aprendizado de violão a partir da execução de cantigas de roda, organizar uma orquestra de violões ou montar um repertório garimpando peças clássicas de compositores como Heitor Villa-Lobos, Radamés Gnatalli e Ernesto Nazareth são atitudes que praticamente definem o perfil de Turibio Santos.
E é para desfrutar desse cardápio que ele está convidando o público para uma nova incursão à sua obra com o lançamento simultâneo de dois discos e um livro, todos reveladores de uma clara opção estética. Aos 55 anos, Turibio se mantém um incansável difusor da música brasileira, no que ela tem de originalidade e raízes bem plantadas tanto na cultura popular quanto na tradição erudita.
ReproduçãoCD Latinidad reúne peças de Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Luiz Gonzaga e outrosMestre de prestígio internacional, ele já gravou mais de 40 discos por gravadoras daqui e de fora, além de ter se apresentado ao lado de grandes personalidades musicais como Jean-Pierre Rampal, Mstislav Rostropovitch e Yehudi Menuhin; e ser acompanhado em concertos por orquestras do porte da Royal Philarmonic Orchestra, English Chamber Orchestra e Orchestra National de France.
Paralelamente à carreira artística, atua como diretor do Museu Villa-Lobos (RJ) desde 1986, desenvolvendo atividades de preservação e divulgação da obra de Villa-Lobos e tarefas de cunho pedagógico com a realização de cursos de iniciação musical para crianças. Nesta temporada, porém, Turibio resolveu desafogar sua produção.
ReproduçãoO livro Violão Amigo traz cantigas de roda do Brasil com arranjos para iniciantesNo CD Latinidad (Warner Classics), que está chegando às lojas, o artista reúne composições gravadas entre 1973 e 1985 para o selo francês Erato. Com exceção de Prelúdio nº 4, única faixa de sua autoria, o disco faz um giro demonstrativo pelo repertório de vários compositores realçando o potencial das cordas retesadas para abordar gêneros musicais distintos.
O programa inclui desde baiões de Luiz Gonzaga a choros de Ernesto Nazareth e peças religiosas de Agústin P. Barrios. Todas as gravações foram realizadas em igrejas de Paris. Também recém-lançado, o CD Turibio Santos & a Orquestra de Violões (Visom) retoma a formação criada pelo músico no começo dos anos 80.
ReproduçãoTuribio Santos & a Orquestra de Violões: peças de Radamés Gnatalli, Francisco Mignone e outrosO conjunto, formado por seus alunos e ex-alunos de universidades cariocas, interpreta peças de Villa-Lobos, Radamés Gnatalli, Edino Krieger, Francisco Mignone e Sérgio Barbosa. Inclui ainda dois hinos nacionais: o oficioso Aquarela do Brasil e o oficial. Além dos CDs, Turibio Santos está lançando o livro Violão Amigo - Cantigas de Roda do Brasil (Jorge Zahar Editor), que traz um método original para o aprendizado de violão reunindo harmonias simples das mais conhecidas cantigas de roda infantis.
Com texto bilíngue em português e inglês, o álbum apresenta pautas musicais de peças famosas como Eu fui no Tororó, Atirei o Pau no Gato, Boi da Cara Preta, além de 5 arranjos especiais do violonista para cantigas como Samba-lelê e Carneirinho, Carneirão. Completam o volume exercícios, escalas, um pequeno histórico da chegada do violão ao Brasil e uma bibliografia especializada.
Nesta entrevista à Folha ele fala do disco, do livro, dos novos violonistas e do mercado de música instrumental no Brasil.
Você está lançando uma coletânea de músicas gravadas na França. Conte como foi a experiência de registrá-las em igrejas?.
O CD Latinidad é uma recompilação de gravações feitas em Paris entre 1973 e 1985. Ele foi todo gravado em igrejas, uma prática mais ou menos comum por causa da carência de estúdios por lá. No caso de música clássica, eles apelam para todo tipo de mobiliário religioso para realizar gravações. Mas não é só para violão não: é para órgão, orquestra, tudo.
Você está lançando também um livro de aprendizado de violão. Por que escolheu cantigas de roda para compor o material?
Acho que as canções infantis têm sido negligenciadas no País. Achei importante a iniciação musical com o rico material que temos. Para este livro, reuni pautas musicais de 15 canções de roda que todo brasileiro traz, ou deveria trazer, em sua memória. Quis harmonizar as canções da maneira mais simples possível sem com isso tirar-lhes o encanto. A idéia é que o livro funcione como uma espécie de guia, fornecendo a professores e alunos de violão uma iniciação brasileira ao instrumento. A figura do professor aí, convém lembrar, é fundamental. Afinal, esse negócio de querer aprender sozinho com revista de banca termina sempre em besteirol.
A garotada anda interessada em aprender violão, ou está indo direto para a guitarra?
As novas gerações estão estudando. No Brasil, existe o hábito saudável de fazer conjunto de violões, que é uma boa idéia didática para entusiasmar o pessoal. É que o violão é um instrumento muito ingrato, de volume pequeno mas de erro escandaloso. Essa, aliás, é uma das razões que fazem com que muitos iniciantes na prática do instrumento acabem desistindo de aprender. O violão é muito ingrato. Mas, ao mesmo tempo, é o instrumento mais terapêutico que existe. Conduz o músico ao seu interior, à sua intimidade. Vejo jovens guitarristas que tocam rock estudando muito, inclusive repertório barroco. Acho bacana quando vejo caras nas ruas com o violão nas costas. É uma coisa que só vejo aqui e na Espanha. É a imagem do violão como um amigão.
Como você analisa o trabalho de solistas que estão incorporando a tecnologia eletrônica ao violão? O Ulisses Rocha, por exemplo, utiliza o violão MIDI em seu último disco.
Se houver arte, tudo bem. Desde que exista ambição artística, todo músico seleciona aquilo que é apropriado na tecnologia. O Jimi Hendrix usou a eletrônica e deixou uma obra fantástica, maravilhosa.
Você está divulgando também um CD (lançado no final do ano passado), no qual é acompanhado de uma orquestra de violões do Rio de Janeiro. Como foi essa experiência? A orquestra foi remontada apenas para a gravação desse disco?
O repertório desse disco estava guardado há muitos anos. É um material praticamente original para orquestra de violão incluindo composições de Radamés Gnatalli e Francisco Mignone. A orquestra é formada por meus ex-alunos, que constituem 99% de seus integrantes. A maioria é de professores das universidades federais e faculdades particulares do Rio, sendo que muitos deles são remanescentes de uma orquestra de violões que eu tinha organizado em 1982. Na verdade, a orquestra atua ocasionalmente. É formada por violonistas muito equipados musicalmente. Alguns deles já formaram outras orquestras.
Você sempre teve um papel de destaque no resgate de grandes compositores e de recuperação de manifestações musicais tradicionais do Brasil. Como você vê o processo de globalização, você acha que o Brasil tem resistido ou já está sofrendo o problema da uniformização cultural?
O frango pode ser globalizado, mas gente não. A vida das pessoas se baseia na memória, então elas não podem perder a memória. Constatamos que a globalização tem limites e, no caso da cultura, os limites são bem claros. Existe, claro, uma massificação brutal. Mas não acredito que a globalização vá triunfar. O que observo na França, onde as pessoas estão preocupadas em proteger a cultura local, vejo ocorrer também no Brasil com a revitalização das manifestações culturais regionais.
Como você analisa o mercado de música instrumental no Brasil? Dá para ser otimista?
A música instrumental sempre vai para a frente. Ao contrário do que se afirma, não acredito que o espaço para a música instrumental tenha se reduzido. É claro que o Fantástico, o Faustão e outros programas de apelo popular da televisão sempre vão tocar aquilo mesmo. Mas hoje existem janelas para a veiculação de música instrumental que antes não existiam. É o caso das TVs pagas, de canais como Multishow, Futura e a própria TV Cultura.ReproduçãoTuribio Santos: reconhecido internacionalmente como intérprete, arranjador e maestroNelson Sato





