Nelson Sato
de Londrina
Uma tradição só se renova com a teimosia dos visionários. Aclamado pela crítica como o ‘‘músico da década’’ no fim dos anos 80, o violonista paulista André Geraissati sai do casulo com mais uma coleção de peças instrumentais, depois de um longo intervalo sem lançar discos no País.
‘‘Next’’, seu quinto álbum solo, chega às lojas pelo selo Tom Brasil com distribuição pela gravadora Eldorado. Reúne quatro composições inéditas, uma regravação e uma versão de ‘‘Trem Caipira’’, de Heitor Villa Lobos. Geraissati continua expandindo as fronteiras estéticas do violão.
Além de explorar afinações incomuns, convoca uma formação pouco usual nesta nova empreitada acompanhando-se de dois teclados (Eduardo Queiroz e Emilio Mendonça) e uma moringa de barro (Renato Martins). A tecnologia de ponta também entrou no projeto através do sistema High End, que permite maior contraste e profundidade entre todos os elementos sonoros que compõem a peça musical.
Seus próprios shows dispõem agora de recursos de palco inéditos no Brasil, substituindo a mesa de som por um sistema digital de controle. O concerto de lançamento do CD está programado para o final do mês em São Paulo. Em seguida, ele sai em turnê pelo País. Geraissati ganhou renome a partir do Grupo D’Alma, que integrou ao lado de Ulisses Rocha e Rui Saleme (substituído depois por Mozart Mello) entre o final dos anos 70 e começo dos 80.
Formado por três violões, o grupo inovou a linguagem do instrumento tocando repertório próprio fundindo sotaque brasileiro, harmonias jazzísticas, refinamento erudito e um certo ingrediente pop. Paralelamente às atividades no D’Alma, juntou-se a Egberto Gismonti com quem fez várias apresentações nas turnês do parceiro, além de tê-lo convidado para participar de seu primeiro álbum solo ‘‘Entre Duas Palavras’’ (1983).
Lançou depois ‘‘Insight’’ (1985), ‘‘Solo’’ (1987), ‘‘Dagdad’’ (1988) e ‘‘7989’’ (1989) – todos apenas em vinil. No exterior, lançou o álbum ‘‘Brazilian Image’’ (1991), que gravou em duo com o músico Paul Horn. De lá para cá, ele abriu mão da carreira para se dedicar à difusão de música instrumental brasileira comandando uma parceria entre o selo Tom Brasil e o Banco do Brasil.
O projeto, que produziu discos e shows, reuniu os principais nomes do gênero no País incluindo Hermeto Pachoal e Egberto Gismonti. ‘‘Foi um evento sem precedentes na história da música instrumental brasileira. Houve temporadas em que produzimos até três concertos simultâneos, com orquestra e tudo’’ – lembra ele.
Ainda durante esse período, esteve à frente da série de concertos ‘‘Cordas Dedilhadas’’, que trouxe para o País – através do Sesc de São Paulo – músicos internacionais do quilate de Scott Henderson, Michael Manrig e Gary Willis. Empolgado com essas apresentações, ele planeja levar adiante outros projetos afinados com o conceito de globalização.
Um deles, que define como sua ‘‘nova utopia’’, consiste em reunir bambambãs da música instrumental planetária para gravar uma determinada peça, que seria posteriormente mixada – ou montada – por outros artistas e até convidados especiais como críticos de música. ‘‘Meu sonho é juntar o Joe Zawinul e o Hermeto Paschoal’’ – diz, eufórico. ‘‘Como seria essa gravação com todas as possibilidades tecnológicas que temos hoje? Imagine como seria se tivéssemos três ou quatro montagens dessa música: uma feita por Quincy Jones, outra por Prince, outra pelo pessoal do mangue beat, e ainda outra feita pelo Arrigo Barnabé? Já pensou nisso?’’
Por enquanto, a idéia está no papel. É sobre ela e outros assuntos que ele fala nesta entrevista à Folha.

Por que você ficou dez anos sem lançar discos no Brasil?
André Geraissati: Porque me envolvi num projeto que era para durar só dois anos e acabou durando dez, por causa do excesso de solicitações. Foi o projeto ‘‘Brasil Musical’’, que criei em 91 através da empresa Tom Brasil com patrocínio do Banco do Brasil. A idéia era reunir todo mundo que fazia música instrumental brasileira. Tive então que abrir mão de minha carreira para cuidar de uma empresa que cuidava de muito mais gente. Produzimos vários discos e eventos.
Que idéias orientam seu novo disco?
Esse trabalho foi todo realizado com tecnologia de ponta. Gravei boa parte dele no sistema High End, que exige inclusive um equipamento de palco mais sofisticado durante os concertos. A mesa de som, por exemplo, será substituída por um sistema hiper-surround, baseado em computador e que foi feito sob encomenda na Califórnia. É o único equipamento do gênero na América Latina. Toda a parte de cabos, caixas acústicas e amplificadores também é top de linha de audiófilos. É, enfim, um mundo sonoro completamente diferente.
O que impulsiona você a usar afinações diferentes no violão?
A tessitura, a possibilidade de poder usar mais as cordas soltas para obter notas mais graves e notas mais agudas que o usual. Você ouve e sabe que é um violão, mas é um violão que soa de um jeito completamente diferente do normal. E é claro que isso me leva a compor e tocar de uma forma também fora das convenções.
Quem, entre seus colegas instrumentistas, está traduzindo com mais competência a contemporaneidade?
Com a globalização, o mundo ficou muito próximo. É maravilhoso pegar um disco de um violonista brasileiro e perceber que ele já incorporou elementos de lugares distintos a partir de uma ótica brasileira de grande centro. São Paulo, como Nova York, é uma esquina do mundo. Além de abrigar as culturas italiana, espanhola, alemã e várias outras, é simultaneamente a maior capital do nordeste e a maior capital japonesa depois de Tóquio. Aqui tudo se mescla, tudo se funde. No Brasil, músicos como Ulisses Rocha, Marco Pereira, Badi Assad e Paulo Bellinati já trazem essa fusão em sua música.
O que é o novo hoje em música?
Na década de 90, a grande revolução não é musical: é tecnológica. É a tecnologia que está propiciando as grandes fusões musicais e permitindo que a música chegue a lugares distantes numa velocidade vertiginosa. A cada semana, surge uma novidade tecnológica que possibilita que sonhemos com a utopia de um evento com a participação de músicos de cidades e países diferentes em tempo real.
A Internet e as novas possibilidades de divulgação e difusão têm aumentado o público para a música instrumental?
No mundo inteiro, a música instrumental tem um público infinitamente menor do que a música de mercado. Sem julgar a qualidade, eu faria um paralelo entre o público que frequenta o McDonald’s e o público apreciador da cozinha francesa. Não estou dizendo que um é melhor ou pior que o outro, mas há características e apreciações diferentes. A vantagem da música instrumental em relação à música comercial é que ela é atemporal, durável, não envelhece. Seu mercado é quantitativamente menor, mas possui uma longevidade maior. Como na cozinha francesa, seu público é reduzido mas cativo e fiel. Por isso, deveríamos encarar o mercado de outra forma, por uma ótica de carreira, trabalhando a longo prazo.

Faixa a faixa por André Geraissati
‘‘Trem Caipira’’: ‘‘Peguei aquela melodia conhecidíssima do Villa-Lobos e alterei o andamento para deixá-la bem contemplativa. Tirei uma ou outra nota da melodia para deixar a música mais vazia, e acrescentei um trecho (um solo de piano) à versão original. A idéia é remeter ao significado poético do trem, à sua alma, à emoção das pessoas que andam nele.’’
‘‘Entre Duas Paredes’’: ‘‘É uma releitura de uma composição que eu e o Egberto Gismonti fizemos em duo, ele ao piano e eu ao violão. Quis usar sintetizadores para obter a atmosfera e a textura parecida com arranjos orquestrais, que soassem bem diferentes da primeira versão.’’
‘‘Tuíu’’: ‘‘O título nasceu de uma brincadeira no estúdio. Não quer dizer nada, é apenas uma frase de sintetizador do começo da música que faz ‘tuíu’. A composição parece uma sinfonia. É a música que mais ouço no CD. Gostei bastante do resultado, das poliritmias e politonalidades que aparecem nela. Quando estávamos ensaindo no estúdio, o Scott Henderson disse que a imagem que a composição lhe trazia era de estar na Amazônia ou no nordeste brasileiro acompanhado de um nativo com um monte de satélites sobre a cabeça. Gostei dessa imagem, que revela a coisa da aldeia mas mostra também essa aldeia dentro da comunicação planetária.’’
‘‘Kenya’’: ‘‘É um samba com um ponto de vista de um samba bastante incomum, já que pela afinações que eu uso o acento aparece deslocado. A música contém divisões 3/4, 5/4 e 7/4 que fogem do padrão do samba tradicional, que é de 2/4.’’
‘‘Zimbo’’: ‘‘O título é uma alusão ao Zimbo Trio. Hoje eles são meus amigos, mas quando eu tinha 13 ou 14 anos e nem sabia tocar, a minha escola foi fazer uma visita à TV Record e os vi fazendo uma passagem de som. Foram uns 40 segundos apenas, mas bastou para ter um impacto definitivo em minha vida. A música é uma homenagem a eles e ao significado da palavra, que quer dizer ‘sorte’.’’
‘‘Vento’’: ‘‘É um baião, mas um baião não muito evidente. O ritmo aparece, mas numa forma bem subjetiva com afinações diferentes e divisões inusuais de 5/4.’’André Geraissati, considerado pela crítica o melhor instrumentista da década de 80, está de volta ao mercado fonográfico com um novo trabalho
DivulgaçãoAndré Geraissati: ampliando a linguagem do violão brasileiro com apoio da tecnologiaReproduçãoNovo disco do violonista traz quatro músicas inéditas, uma regravação e uma composição de Villa-Lobos

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