Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Ezequiel Piaz, o violonista que mostra sua arte nas noites dos bares elegantes de Curitiba e aos domingos embala o almoço dos frequentadores do restaurante Estrela da Terra, ainda encontra tempo para dar aulas em Londrina e Maringá. Hoje à noite ocupa o palco do Teatro do Paiol, em Curitiba, para lançar seu primeiro CD, ‘‘Violão Brasileiro’’.
Vindo de uma família onde todos os membros eram músicos, seria difícil tomar outro rumo na vida. Desde pequeno estava envolvido com as cordas – muito pequeno aprendeu a tocar bandolim, cavaquinho, violão e acordeom. Fez o Conservatório Estadual de Música de Uberaba (MG) e graduou-se em violão pela Universidade Federal de Uberlândia (MG).
Está há alguns anos em Curitiba, e muita gente acredita que ele seja mineiro. O jeito dócil e meio quieto ilude: nasceu em Passo Fundo (RS), mas logo depois sua família mudou-se para Minas. Descendente da mistura de espanhol com indígena, acredita que sua música traga as cores das raças e as influências do caipirismo mineiro. Tudo isso acrescentado de pitadas da vida urbana.
‘‘Carrego influências da coisa caipira mineira, e que é a coisa da viola, do dedilhado do violão; as cores urbanas vieram da fase de estudos, dos tempos da universidade e por aí vai... Esses elementos, com certeza, se misturam em mim’’, diz.
O disco – que será apresentado pelo violonista no recital no Paiol – traz também uma mistura de raças ‘‘equitativa’’, como explica Piaz. Assim como tem cores nativistas em alguns números, há também o tempero espanhol numa ‘‘fusão de diferentes linguagens’’.
Parte desse som foi ouvido pelos europeus quando o instrumentista participou de uma excursão pela Polônia, Alemanha e Checoslováquia, com um grupo de artistas curitibanos. Nessa temporada fez concertos solo na Alemanha e Polônia.
A receptividade foi tão boa que levou o compositor a colocar no CD textos de apresentação em quatro idiomas: espanhol, inglês, francês e alemão. Há sempre a possibilidade de se ampliar as fronteiras. Ele cita Garoto, um dos mais geniais violonistas brasileiros, que lá fora era citado como um dos melhores do mundo. Havia muito mais convites para tocar lá que no Brasil. Essa história ocorreu há meio século e continua se repetindo ainda hoje.
Quando começou a compor Piaz caiu na armadilha dos fraseados difíceis, para dar um tom de virtuosismo na peça. Dessa fase alguma coisa está no CD, porque assim como tem criações recentes – do ano passado –, há também aquelas com mais de dez anos. Hoje, mais maduro, pensa diferente: ‘‘A primeira coisa que a música deve ter é o dom de tocar o coração das pessoas. O grande lance é o sujeito se desprender de qualquer pré-informação a respeito da música, e apenas sentir. Acho que isso está bem claro nesse disco.’’
Fazendo um corte no tempo, entre os trabalhos anteriores e os recentes, ele percebe que sua composição preocupa-se cada vez mais com a pesquisa rítmica da música brasileira. ‘‘Há uma necessidade mais intensa de adentrar no seu universo’’, afirma.
A perseguição que havia à técnica e à forma deu lugar a um relaxamento saudável. ‘‘Nesta segunda fase consigo me soltar mais, mesmo porque hoje conheço mais a fundo o trabalho de outros grandes violonistas brasileiros, como Garoto, Laurindo de Almeida, Baden Powel, Paulo Belinatti, Villa-Lobos.’’
Que perfil pode-se fazer do ‘‘Violão Brasileiro’’? ‘‘Eu diria que ele é uma fusão da história do violão’’, responde Piaz. Mesmo achando que pode estar sendo pretensioso por pensar assim, sustenta aquilo que diz. ‘‘Eu o chamaria de um CD de música instrumental contemporânea, com pitadas de coisas clássicas e regionais que refletem bem o nosso País.’’ E continua: ‘‘‘Uso elementos da música nordestina, da região central que pega o interior mineiro, paulista e goiano – tem muita coisa de moda de viola caipira, elementos que uso muito – e aquela pegada forte do sulista. Então eu chamo a isso de música contemporânea brasileira. O disco é basicamente isso, uma tentativa de mostrar e valorizar os elementos que temos aqui.’’
‘‘Violão Brasileiro’’, recital do violonista Ezequiel Piaz, que aproveita a noite para lançar seu primeiro CD. Hoje, no Teatro do Paiol, às 21 horas. Ingressos: 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e classe artística).

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