VIOLA ECLÉTICA
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quarta-feira, 20 de junho de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Eu chamo a viola de Carmen Miranda. As duas vieram de Portugal. Uma foi para Hollywood e a outra foi para a roça. A minha viola já esteve em Hollywood, mas Carmen Miranda nunca esteve na roça. O bom humor do violeiro Renato Andrade disfarça o conhecimento que o tornou referência no instrumento. À formação erudita, ressaltada por trabalhos com Guerra-Peixe, Francisco Mignone, Edino Krieger, Radamés Gnatalli e Flausino Vale, Renato Andrade agregou a experiência popular. Há 16 anos sem tocar no Paraná, Renato Andrade inicia hoje, por Londrina, uma miniturnê que inclui Maringá e Curitiba. O violeiro sobe ao palco do Auditório do Sindicato Patronal do Comércio Varejista às 20h30.
Renato Andrade tem uma trajetória nada comum. Desde criança se dedicou ao violino. A viola caipira, segundo ele, era como mortadela: todo mundo gosta mas você não vê ninguém comendo na rua. Ou seja, o instrumento era marginalizado.
A paixão falou mais alto e, aos 36 anos, Renato Andrade trocou o violino pela viola. Uma decisão corajosa e, na época, incompreendida. Aos poucos, o músico ganhou espaço no cenário musical carioca, chamando a atenção de compositores reconhecidos.
Essa mudança não foi fácil. Autodidata na viola, Renato Andrade teve que estudar muito para descobrir os recursos do instrumento e alcançar uma técnica que lhe permitisse utilizar seus conhecimentos musicais. E provou que a viola não atende exclusivamente ao repertório caipira, podendo ser incluída em outros gêneros. Achei que a vida estava mais vinculada à viola. Eu já estava de espora, era galinha velha, com 36 anos, comenta, em entrevista por telefone.
Natural de Minas Gerais, o músico foi parar no Rio de Janeiro por causa do cinema. Ele fez uma ponta em um filme tocando viola, e teve que viajar para fazer a sonorização da película. Mas havia um excesso de imagens de Renato Andrade que foi cortado. Essa sobra foi transformada, anos depois, no curta-metragem Veredas Mortas, premiado em Brasília.
Eu saí de minha terra com uma bagagem boa, tinha estudado violino. Eu conheço tanto a música caipira quanto Beethoven, afirma. Renato Andrade conseguiu um currículo que lhe imprimiu um ecletismo característico. Em seu último disco, Viola e Minha Gente, o instrumentista toca desde catira a Tchaikovsky. O disco foi gravado em 1997. Sua discografia inclui ainda A Fantástica Viola de Renato Andrade (1977), Viola de Queluz (1979) e A Magia da Viola (1987). Eu lutei muito para que a viola evoluísse. O Almir Sater foi meu aluno, eu falo que ele é meu sucessor, ressalta.
Com tanta técnica e inspiração, Renato Andrade ganhou fama de ter feito o pacto com o diabo para se tornar bom violeiro. Ele mesmo ironiza: Dizem que eu fiz o pacto com o demônio. Isso na boca do caipira é lenda, na de Goethe é ficção, completa. No show, Renato vai contar em um causo como teria ocorrido o tal acordo.
Não será a única história. O violeiro vai ilustrar a apresentação com várias pérolas da cultura caipira, sem esquecer Guimarães Rosa. Uma delas: Nosso criador é um ser tão bão, que além de ser tão bão criou um sertão bão. Nosso maior predador é o progresso. A tecnologia está acabando com o caipira, com o homem simples da roça, acrescenta. O show O Virtuosismo na Viola Caipira de Renato Andrade em Londrina é uma promoção da Vivarte Produções Culturais.
O Virtuosismo na Viola Caipira de Renato Andrade Show com o violeiro Renato Andrade. Hoje, às 20h30 no Auditório do Sindicato Patronal do Comércio Varejista (Rua Ana Néri, 300 telefone 43-342-3132). Ingressos antecipados a R$ 10,00 (R$ 15,00 na hora). Estudantes com carteirinha e idosos pagam R$ 7,50. Amanhã o violeiro se apresenta em Maringá, na Oficina de Teatro da UEM, a partir das 21 horas, com ingressos a R$ 5,00 (informações pelo telefone (44) 261-4263). No domingo, Renato Andrade toca no Guairinha, em Curitiba, às 20 horas. Ingressos a R$ 10,00.


