Há algo em comum entre os músicos que vêm alavancando a viola a um patamar mais universal. Todos imprimem, ao instrumento, uma personalidade própria, gerando um movimento de revalorização cultural completamente eclético. É o que ocorre com Pereira da Viola. Ele se vale das raízes cravadas em São Julião, em Minas, onde nasceu, mas também percorreu o Espírito Santo, Rondônia, Goiás e Mato Grosso, acumulando um leque amplo de influências. Pereira da Viola toca hoje em Londrina, a partir das 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde.
Outra característica deste grupo, que inclui Paulo Freire, Roberto Corrêa, Braz da Viola, Almir Sater e Ivan Vilela, é a opção pelo trabalho independente como forma de resistência ao mercado fonográfico, sempre capaz de traduzir música em produto rentável.
Não é à toa que o novo disco de Pereira se chama ''Viola Ética''. O disco, que vai rechear 80% do repertório do show, traz participações especiais de Inezita Barrozo, Paulo Freire, Braz da Viola e de André Siqueira, músico que Pereira conheceu em Londrina e que em breve lançará um CD ao lado de Braz da Viola.
De Ribeirão Preto, onde vive, Pereira conversou, por telefone, com a Folha2. No bate-papo, ele fala do novo CD e explica por que a viola vem atraindo gerações e galgando espaços na música brasileira.

Quais são as novidades de ''Viola Ética''?
Eu regravei duas músicas de meu primeiro disco, ''Terra Boa'', com uma linguagem diferente, com caixa de folia de reis e flauta. As outras músicas são de amigos, principalmente pessoas que possuem um trabalho que admiro, que fazem parte da minha formação musical. Tem músicas inéditas e uma versão para viola do Hino Nacional.

O show de hoje vai enfocar principalmente o novo CD?
Principalmente o CD, mas também pinceladas de discos anteriores, com músicas como o ''Bolero'' de Ravel e ''Viola Cósmica''.

Por que ''Viola Ética''?
Vem em função de um artista que acredita na sua forma de ver o mundo, contextualizado em uma realidade diferente da que está na mídia. Um artista que não se deixa violar pela massificação de nossa cultura. Com essa história de globalização a gente sabe que há uma necessidade de se ter uma cara, de ter uma clareza do que se faz. É uma postura, não queremos ser engolidos pela globalização. Criou-se um movimento à parte. O artista pode optar entre um mercado para se empanturrar de dinheiro ou uma forma de fazer um trabalho sério e viver dignamente dele.

Você vem de São Julião, em Minas, mas já passou pelo Espírito Santo, Mato Grosso, Rondônia... O que caracteriza a sua música?
Eu tenho como referência São Julião, onde nasci. Em contexto mais geral, vivenciei outras coisas que influenciaram meu trabalho. Em São Julião ouvia as folias de reis chegando em casa... Depois fui para a Serra dos Aimorés, onde tive contato com uma outra visão de cultura e música, com Elomar, Paulinho Pedra Azul, Titane e outros. Isso foi por 83, 84... Antes disso não conhecia nem Caetano Veloso. Eu passei a ter uma relação de respeito com alguns violeiros, como Milton Edilberto, Renato Andrade, Roberto Corrêa, Paulo Freire e Braz da Viola.

Falando nisso, quais as transformações que essa turma está trazendo para o instrumento?
A grande mudança na viola foi a quebra do preconceito. Antigamente as pessoas achavam que o violeiro era um velho com camisa xadrez que bebia pinga. Essa geração ouviu outras coisas e trouxe isso para a viola. Cada um teve a coragem de botar a sua personalidade no instrumento. A viola não está presa a uma única história, ela ainda está em aberto. E acredito que ela vai ocupar seu espaço definitivo. Eu acho que pode ocorrer com a música de viola o que ocorreu com o forró. A gente passa para a viola o nosso jeito brasileiro de ser. A violeirada vai dar as cartas na música brasileira.


q''Viola Ética'' Show de lançamento do CD de Pereira da Viola. Hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina. O acompanhamento traz Céli Sene (flauta), Dito Rodrigues (violão) e Cássia Maria (percussão). Ingressos antecipados a R$ 10,00 até às 19 horas na bilheteria do Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Na hora sobe para R$ 12,00. Estudantes e idosos pagam R$ 6,00. O disco estará à venda no local.

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