O texto de Guimarães Rosa, com a descrição detalhada do cotidiano dos sertanejos, atiçou a curiosidade do jovem Paulo Freire. O sertão agreste, com seus tipos, lendas e paisagens, retratado em ‘‘Grande Sertão: Veredas’’, empolgou o ex-estudante de Comunicação, por volta de 1976. ‘‘Toda essa região deve ter uma grande musicalidade’’, pensou.
A leitura do livro começou com um grupo de estudos, logo após o abandono da faculdade. Nas orelhas da publicação, havia um mapa das regiões transcorridas pelo texto. Era o guia para Paulo Freire se aventurar pelo sertão de Minas Gerais, em busca da música implícita no livro.
Freire rodou até chegar em Urucaia. Lá fez amizade com o lavrador Manoel de Oliveira, um mestre da viola. O instrumento, no interior de Minas, é mais utilizado como solista, enquanto no Nordeste acompanha, com mais frequência, o canto. Oliveira foi ensinando técnicas, rasqueados e ponteios que copiavam os sons da natureza da região.
Paulo Freire viveu dois anos entre o sertão e São Paulo. Em Minas, pegou toxoplasmose e hepatite. Mas aprendeu a tocar viola muito bem. É essa a arte que ele apresenta hoje, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, em Londrina.
Reprodução‘‘Eu já tocava violão e guitarra quando cheguei no sertão e me deparei com um lugar sem energia elétrica, mas que mantinha uma cultura muito forte, com músicas, danças e outros costumes. Lá o violeiro toca e as pessoas param para ouvir’’, comenta Freire.
No interior de Minas, Paulo Freire conviveu com histórias de violeiros, como pactos com o diabo, e aprendeu na viola o toque do papagaio, do veado quando desce o rio, e outros. Em uma das receitas para contatar o demônio, o sujeito deve ir até a igreja de uma cidade onde morou um grande violeiro, à noite, colocar o braço para dentro da construção e invocar em voz alta.
Dentro da igreja, o diabo aparece e, entre outras coisas, quebra os dedos do candidato a instrumentista. Após uma série de tarefas, o cabra vira bom tocador. ‘‘A receita é muito longa para escrever, mas vou contar no show. O interessante é que, na lenda, o diabo está dentro da igreja’’, acrescenta o músico.
O interesse pela viola veio também da vontade de conhecer melhor um Brasil governado com mão de ferro, invadido pela música estrangeira e afastado de suas raízes. ‘‘A viola carrega o sertão dentro dela, e, para tocá-la, tem que morar no sertão’’, argumenta.
De volta a São Paulo, Freire montou algumas apresentações com o que havia aprendido. Mas, no auge da discoteca, a viola era vista com desdém. ‘‘Chegávamos nas festas tocando viola e acordeon, algumas pessoas gostavam, mas a maioria ficava irritada, éramos quase expulsos a tapa’’, recorda.
Como instrumentista parado perde tempo, Paulo Freire se mandou para a França, para estudar violão clássico. Na Europa, viajou tocando música brasileira por cerca de dois anos e meio. De volta ao Brasil, retomou o contato com a viola.
O violeiro ainda vai com certa frequência a Urucaia, retomar o contato com o mestre Manoel Oliveira, principalmente em período de Folia de Reis, época em que a musicalidade do sertão aflora. Quando volta para São Paulo, leva mais conhecimento. Assim, a viola está crescendo na interpretação do músico, tanto que até roubou o espaço do violão.
No show de hoje, Paulo Freire e a cantora Ana Salvagni vão interpretar modinhas antigas, cantos de trabalho e clássicos da MPB, como músicas de Chico Buarque e Edu Lobo, com arranjos modernos para voz e viola. A participação de Salvagni é ressaltada pelo compositor: ‘‘Ela é formada em regência e canta de forma limpa, sem muita invenção. É um estilo que se adapta muito bem à viola’’.
Durante a apresentação, há um intervalo para um bate-papo curioso. O engenheiro Oswaldo Guimarães vai falar sobre a Associação Nacional dos Criadores de Saci. Para quem não acredita, Oswaldo revela que sacis estão sendo criados em Botucatu, Jundiaí e Itajubá.
Os sacis, que seriam uma espécie de primata, são criados em viveiros e depois soltos na mata, conforme Guimarães. ‘‘Se alguém quiser criar saci, basta contar histórias sobre o bichinho, isso já ajuda a recriar o folclore e a reintroduzir o saci na vida das pessoas. A parte de repovoamento das matas deixa que a gente cuida’’, comenta o engenheiro. Oswaldo revela que a associação conta com membros de várias profissões, como médicos, advogados, juízes, dentistas, biólogos e outros.
Após a conversa, Paulo Freire e Ana Salvagni voltam ao palco para interpretar o repertório do disco ‘‘São Gonçalo’’, que Freire está lançando. ‘‘São Gonçalo é padroeiro dos violeiros e santo da fertilidade. Eu escolhi este nome porque a viola está em um momento muito fértil, ela está nas salas de concertos e cada violeiro dá uma visão especial ao instrumento. No disco eu conto histórias durante as músicas, com participação vocal da Ana. Muita coisa que está neste álbum foi composta com o Manoel de Oliveira’’, explica. O álbum foi lançado pela Pau Brasil.
Além do novo disco, Paulo Freire está participando do projeto da Orquestra Popular de Câmara, ao lado de Benjamin Taubkin, Mané Silveira, Teco Cardoso e Naná Vasconcelos, entre outros. O disco da Orquestra deve sair em breve pelo Núcleo Contemporâneo.
Outro projeto do compositor engloba arranjos de músicas atuais para voz e viola, ao lado de Ana Salvagni. ‘‘Vamos gravar músicas do Karnak, do Mestre Ambrósio e de José Miguel Wisnik numa adaptação muito interessante. Esse trabalho é fácil de gravar, por se tratar apenas de voz e viola, e deve estar pronto até novembro.’’
A fase fértil da viola, citada pelo músico, é uma referência ao trabalho de compositores como Almir Satter, Roberto Corrêa, Ivan Vilela e do próprio Paulo Freire, que atualizaram o instrumento ao mesmo tempo em que resgataram suas raízes. Embora ainda enfrentem certo preconceito, os violeiros estão se apresentando em diversos países.
‘‘O legal dos violeiros é uma coisa que o Almir Satter falou: ‘tocador de viola tem um monte, mas violeiros são poucos’. Esse pessoal está trazendo a viola do jeito que é tocada, com novas influências. É um momento favorável porque o Brasil está olhando para si mesmo’’, ressalta.
A ligação do show com São Gonçalo e os sacis parte da história do santo: ‘‘São Gonçalo viveu em Portugal em 1200 e pouco, e era considerado o protetor das prostitutas. Ele fazia com que elas dançassem a noite inteira, evitando que vendessem o corpo. Para conter a tentação, o santo dançava com pregos no sapato. Essa dança existe até hoje’’, revela Freire. Pelas suas atitudes, o santo teria sido caçado pela igreja, que exaltou um outro São Gonçalo. Assim, o santo original tornou-se mito. Como o saci.ReproduçãoPaulo Freire: ‘‘Eu já tocava violão e guitarra quando cheguei no sertão e me deparei com um lugar sem energia elétrica. Lá o violeiro toca e as pessoas param para ouvir’’Ranulfo Pedreiro

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