Um banquinho e um violão ficam bem como um cenário para lembrar a bossa-nova. Um banquinho, um violão e piadas vazias é o retrato fiel das sessões humorísticas nos teatros brasileiros. Fugindo desse quadro maçante o ator Jonas Bloch criou o espetáculo ‘‘Hilário’’, atração deste final de semana no Teatro Fernanda Montenegro.
É uma boa pedida para públicos distintos: os que gostam de comédia e os que apreciam ver em cena um ator de talento. Jonas Bloch costuma defender papéis densos na televisão ou no cinema, e graças a essas escalações uma parcela reduzida conhece esse outro lado seu – aquele que arranca desde a gargalhada ao riso da platéia.
Em entrevista à Folha 2 o artista explica que esta montagem resume um painel do humor brasileiro ‘‘do mais refinado ao mais escrachado. Há uma variedade de estilos de humor, sem perder a unidade. O espetáculo se diferencia dos demais pela sua qualidade, e pela crítica à maneira de pensar do brasileiro’’.
Sem o comodismo da mera procissão de piadas, o ator transforma-se literalmente nas mais variadas personagens, encontradas diariamente em qualquer esquina. São 20 papéis que ele interpreta, vivendo os tipos mais comuns: tem o pastor que faz qualquer negócio com seus fiéis, desde que o dinheiro esteja garantido.
Tem o apresentador de televisão gay, que vê o mundo pela lente fashion ; a vendedora de sanduíches naturais que por toda lei quer ser uma pessoa zen, seguindo o figurino dos místicos dos anos 70; uma relações públicas de uma imobiliária e, simultaneamente, ele interpreta duas velhinhas que estão conversando. ‘‘Cada uma delas com suas vozes e corpos diferentes’’, explica o ator.
Ele comenta que há uma grande brasilidade no palco. As figuras são as mais reais possíveis, como se fosse um espelho. ‘‘Hilário’’ tem preparação corporal de Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo; figurinos de Claudio Tovar, música de Alexandre Negreiros e Totono Villeroy, preparação vocal de Paula Santoro. A supervisão geral ficou por conta de Pederneiras. Os textos foram pinçados de espetáculos anteriores de Jonas Bloch. ‘‘Criei e reescrevi personagens’’, afirma.
Dono de uma carreira de 40 anos, esta é a primeira vez que Bloch atua num espetáculo solo. Monólogo era uma antiga ambição que o perseguia, e chegou até ele como uma solução para sua falta de tempo. Os compromissos com cinema e televisão vinham impedindo que abraçasse um projeto teatral de temporada mais longa. ‘‘Eu não podia fazer teatro com outra pessoa, sob o risco de abandoná-la no meio do caminho’’, argumenta.
Desta forma o artista carrega sua peça por onde quer que seja, harmonizando as agendas. Desde o mês de março em cartaz, ‘‘Hilário’’ já passou por alguns festivais, como os de Campina Grande, São José dos Campos, Ouro Preto e Cabo Verde. A receptividade da imprensa e do público mostra que o preconceito que se abateu sobre espetáculos afins começa a se esgarçar.
Depois de viver o áureo período do bom humor, montagens como ‘‘Hilário’’ caíram em desgraça por parecer simplória. A sisudez, o discurso hermético chegou aos palcos como sendo ‘‘experimentalismo, com ar europeu’’. Agora, com o fim do esnobismo, as portas começam a abrir-se novamente, diz Bloch, aliviado. ‘‘Faço parte de um grupo de artistas que tentam valorizar esta forma de arte. Sinto que o panorama começa a mudar’’. Com patrocínio da Embratel e Rio Sul, através da Lei Rouanet, ele sabe que tem ao lado parceiros poderosos nesse projeto de fazer rir e refletir.
‘‘Hilário’’, com Jonas Bloch. Um painel com 20 personagens, desde o pastor de olho no dinheiro dos fiéis ao diálogo de duas velhinhas. Preparação corporal e supervisão geral de Rodrigo Pederneiras, figurinos de Claudio Tovar. De hoje a domingo no Teatro Fernanda Montenegro, em Curitiba. Sexta e sábado às 21 horas, domingo às 20 horas. Ingressos: R$ 15,00 (sexta-feira); sábado e domingo R$ 20,00. Informações: fone (041) 224-4986.

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