Vinil em alta
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domingo, 10 de março de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
A primeira noite foi de bolero. A segunda vai destacar os cantores da era do rádio. A terceira, a ser comandada pelo escritor Domingos Pellegrini, é ainda uma incógnita. O fato é que a noite do vinil, criada em Londrina pelo jornalista Apolo Theodoro para movimentar a programação cultural do bar do Tio Mário, pode pegar e estimular iniciativas semelhantes na cidade.
As sessões ocorrem às terças-feiras a partir de 20 horas. O convidado leva os discos, os amigos e escolhe o repertório. A celebração inaugural aconteceu na semana passada com a presença do professor universitário Luiz Carlos Bruschi, que animou as mesas tocando músicas de Nelson Gonçalves, Trio Los Panchos, Manolo Otero e outros do gênero.
A idéia é dar vida nova ao vinil explica o idealizador do projeto, que não esconde sua preferência pelos velhos long-plays. Para amanhã, o escalado é o médico José Luís da Silveira Baldy, cuja coleção de discos reúne seis mil títulos em vinil abrangendo preciosidades de música popular brasileira, jazz e erudito.
Boa parte desse acervo ele já rodou no programa Passado a Limpo, que produz e apresenta aos domingos na rádio Unversidade FM. E muito ainda vai executar no programa Música de Memória, previsto para estrear nos próximos dias na mesma emissora. Baldy é expert na produção musical pré-Bossa Nova. Conhece tudo da era de ouro do rádio.
Amanhã, no bar, promete escavar tesouros de baú. Vou tocar raridades, o que ainda não ganhou versão em CD anuncia. O cardápio inclui gravações empoeiradas de Vassourinha, Dilermando Pinheiro, Gilberto Alves, Deo e Ary Barroso. Os nomes citados lembra o colecionador são apenas alguns da extensa lista de artistas cujas obras não foram atualizadas para o formato digital permanecendo registradas apenas em LPs de 12 polegadas ou em bolachões pretos de 48 rotações.
O que já saiu em CD cobre apenas uma pequena parcela do acervo histórico de nossa música popular garante ele. Até hoje não temos reproduções de cantores do passado como Orlando Silva, Francisco Alves, Aracy de Almeida ou Cyro Monteiro. Quando as gravadoras editam alguma coisa deles, recorrem quase sempre às músicas que todos já conhecem. Quando lançaram uma caixa do Silvio Caldas, deixaram de fora as gravações da época de ouro dos anos 30 e 40. Esse descaso mostra que o CD ainda não substituiu o vinil, que ainda se mantém como importante fonte de conhecimento musical.
A mesma opinião é compartilhada por Nilson Fakir, proprietário da loja de discos Jardim Elétrico, localizada no Centro Comercial e especializada em rock. A invasão do CD foi um lance mercadológico diz ele. Tentaram abolir o vinil, mas hoje está acontecendo um movimento contrário. Se antes as pessoas foram levadas a se desfazer de suas coleções de LPs, hoje elas estão voltando às lojas para trocar os CDs pelas versões em vinil.
Para esta clientela, o acervo de sua loja dispõe de ítens de colecionador, como os álbuns The Beatless Story (disco duplo de 1964 contendo entrevistas com John, Paul, George e Ringo), Et Pluribus Funk (gravado pela banda norte-americana Grand Funk Railroad em 1972) e Mixed Bag (petardo garageiro que o The Troggs registrou em 1969).
As prateleiras exibem ainda diversos títulos dos Rolling Stones, The Doors e Roxy Music, além das trilhas sonoras dos filmes Journey Through The Part (composta por Neil Young em 1973), Jimi Hendrix (registro de 1973 reunindo trechos de shows e depoimentos do maior guitarrista de todos os tempos) e Elvis, o Ídolo Imortal (uma reverência póstuma, de 1981, ao rei do rocknroll). Já entre os artistas nacionais oferece material de Tim Maia, Rita Lee, Erasmo Carlos, Mutantes e das bandas punk Cólera, Garotos Podres e Ratos de Porão.
Engana-se, porém, quem acha que o culto do vinil se reduz ao círculo dos colecionadores. A mística do lado A e do lado B é seguida também nas searas mais modernas, como a da música eletrônica. Há alguns anos, os DJs voltaram a girar plays nos pratos depois de um breve período de rendição aos apelos digitais.Os melhores DJs do mundo tocam exclusivamente vinil afirma o DJ londrinense Adriano Duim, também adepto do formato.
Ele destaca qualidade de som e o manuseio como as principais virtudes da bolacha. O vinil reproduz os sons graves de maneira mais fiel e permite maior agilidade do profissional já que sua manipulação é direta. O CD-player, por sua vez, impede o contato do DJ com o disco. É como chupar bala com papel. O vinil resiste.


