Diz a lenda que o poeta chinês Li Tai Po (701 - 762) após suas costumeiras bebedeiras embaladas por vinho tinto, entrou num barco para percorrer um lago. Ao ver a lua refletida nas águas, começou a compor poemas para o astro. Ébrio, num átimo, desejou abraçar a lua refletida nas águas do lago e, atirando-se, acabou morrendo afogado.
Antes de Fernando Pessoa sintetizar sua condição existencial no verso ‘‘Dai-me mais vinho que a vida é nada’’, Li Tai Po havia anotado num pedaço de papel ‘‘Para lavar velhas mágoas é preciso beber mil frascos’’. A poesia percorre dois sentimentos básicos pela correnteza etílica, a alegria e a dor. Bebe-se e escreve-se por alegria ou por dor.
A literatura universal está repleta de odes aos poderes inebriantes do vinho, mas talvez tenha sido o poeta persa Omar Khayyam (Kháyyám) quem elevou, em sua lendária obra ‘‘Rubaiyat’’ (Rubáiyát), o vinho à categoria de volúpia filosófica.
Nascido na Pérsia em 1040, Omar Khayyam foi um célebre matemático e astrônomo da Idade Média. Foi o responsável pelo calendário mais preciso que se tem notícia - superior até mesmo ao calendário gregoriano elaborado séculos depois e utilizado até os dias atuais.
‘‘Rubaiyat’’ (plural da palavra persa ‘‘rubai’’ que significa quarteto) é composto de pequenas quadras que louvam os prazeres do vinho. Também enfocam o amor e as dimensões filosóficas do universo. A seguir alguns fragmentos de ‘‘Rubaiyat’’ na versão portuguesa de Octavio Tarquino de Sousa publicado pela Editora José Olympio há 50 anos, em 1949.
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‘‘Bebo o vinho como a raiz do salgueiro bebe a água corrente. Deus só é Deus, só Deus sabe tudo - dizes. Pois bem: quando ele me criou, sabia que eu beberia vinho. Se me tornasse abstêmio, a ciência de Deus estaria errada.’’
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‘‘As flores do céu deixam cair suas pétalas de ouro, e não sei por que o meu jardim ainda não está todo atapetado. Como o céu espalha as flores sobre a terra, eu encho a minha taça de vinho cor de roda!’’
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‘‘Um dia, numa taberna, pedi a um velho notícias dos que partiram. Ele me respondeu: Não voltarão. Eis tudo o que sei. Bebe vinho!’’
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‘‘O vinho dar-te-á o calor que não possuis. Libertar-te-ás das névoas do passado e das brumas do futuro. Inundar-te-á de luz, livrando-te dos grilhões de prisioneiro.’’
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‘‘Dizem-me: ‘Não bebas mais Kháyyám!’ E eu respondo: Quando bebo, ouço o que dizem as rosas, as tulipas e os jasmins. Ouço mesmo o que não me pode dizer a minha bem-amada!’’
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‘‘Bebo, mas ignoro quem te fez, ó urna imensa! Sei apenas que podes conter três medidas de vinho e que um dia a Morte te destruirá. Mais tarde, indagarei por quem foste criada, porque foste feliz, porque não és mais que poeira.’’
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‘‘Eu cambaleava de sono, e a Sabedoria me disse: Nunca, no sono, a rosa da felicidade floriu para ninguém. Porque te abandonares a esse irmão da Morte? Bebe vinho! Tens muitos séculos para dormir!’’
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‘‘Bebe um pouco de vinho, porque dormirás muito tempo debaixo da terra, sem amigo, sem camarada, sem mulher. Confio-te um segredo: as tulipas murchas não reflorescem mais.’’
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‘‘A vida passa. Que resta de Bagdad e de Balk? O choque mais ligeiro é fatal à rosa completamente desabrochada... Bebe vinho e contempla a lua, evocando as civilizações que ela já viu morrer.’’
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‘‘Os homens estreitos e orgulhosos criaram diferenças entre alma e o corpo. De mim, só afirmo uma coisa: o vinho destrói os cuidados que nos atormentam e nos dá a quietude perfeita.’’
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‘‘Ouço dizer que os amantes do vinho serão danados no Inferno. Não há verdades, mas há mentiras evidentes. Se os que amam o vinho e o amor vão para o Inferno, o Paraíso deve estar vazio.’’
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‘‘Ninguém desvendará o que é misterioso. Ninguém poderá ver o que se oculta debaixo das aparências. Todos as nossas moradas são provisórias, salvo a última, no coração da terra. Bebe o vinho amigo! Basta de palavras supérfluas.’’

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