Arquivo FolhaMia Farrow solta a verbo: ‘‘Em nossa relação, éramos três: Woody, seu psicólogo e eu’’Mia Farrow dedica mais de um terço de sua autobiografia, publicada esta semana nos Estados Unidos, a sua relação de doze anos com Woody Allen, a quem apresenta como um neurótico pedófilo, incapaz de tomar a menor decisão sem consultar um de seus médicos ou psicanalistas. Quanto à filha adotiva dos dois, Soon-Yi Prévin, cuja relação sentimental com Woody Allen, revelada em 1992, provocou a tumultuada e sórdida separação do casal, Mia Farrow afirma que não quer voltar a vê-la em sua vida.
O livro, ‘‘What Falls Away’’, cuja publicação foi adiada várias vezes, relata a infância dourada de Mia Farrow em Hollywood, onde nasceu em 9 de fevereiro de 1945. Filha da atriz Maureen O’Sullivan, a mais famosa das ‘‘Janes’’ de Tarzã, e do produtor John Farrow, Mia e seus 6 irmãos foram amigos de infância de Liza Minelli e Michael Boyer, filho de Charles Boyer. A madrinha de Mia foi Louella Parsons, ‘‘a comadre de Hollywood’’, cronista famosa e temida por todo o universo do cinema.
Desde seus primeiros passos ainda adolescente diante da câmera, na série de TV ‘‘Peyton Place’’, até seu encontro com Woody Allen em 1979, Mia Farrow seguiu uma carreira sem dificuldades ou glórias, cujos momentos de maior destaque foram no filme ‘‘O Bebê de Rosemary’’ de Roman Polanski (1968), seus casamentos com Frank Sinatra (1966-1968) e com o regente de orquestra André Prévin (1970-1979), um retiro espiritual em um ‘‘ashram’’ indiano frequentado pelos Beatles, e seus filhos adotados, que hoje são 14.
Como nos filmes Sinatra, com quem se casou aos 19 anos, quando ele já tinha 50, é o mais bem tratado em seu livro. ‘‘Frank me incluiu em seu complexo universo pessoal, eu tentei ficar ali com toda a boa vontade. Estava realmente apaixonada por ele’’, escreveu. Ela também conta sobre a sua vida noturna, bebendo e jogando em Las Vegas com Sinatra, mas em nenhum momento denigre a sua imagem e só evoca superficialmente os personagens mais controversos que compunham sua ‘‘corte’’.
A atriz, que durante três anos lutou judicialmente contra Woody Allen para manter os filhos sob sua guarda, fala muito mal do diretor, com quem fez treze filmes. ‘‘Em nossa relação, éramos três: Woody, seu psicólogo e eu’’, disse, explicando que ele nem sequer comprava lençóis sem perguntar antes ao analista. ‘‘Eles dedicaram várias sessões ao tema da troca de lençóis de poliester acetinado pelos de algodão’’, afirmou. A vida de Mia Farrow com Woody Allen lembra estranhamente seus filmes. Segundo ela, Woody está tão obcecado com os micróbios, que mandou construir uma ducha com uma saída especial para que nunca fique água no encanamento.
Ela fala da descoberta de fotos de sua filha adotiva Soon-Yi, nua, tiradas por Woody Allen, sobre a feroz batalha judicial que se seguiu, sobre as acusações contra Allen por ter abusado sexualmente de outra filha do casal, chamada Dylan. ‘‘A raiva já passou’’, declarou na quarta-feira em uma recepção organizada para o lançamento de seu livro. ‘‘O tempo passa e me parece que já estou em outra onda’’, concluiu.

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