Vilma Guimarães Rosa lança coletânea com 14 contos e uma segunda edição de "Relembramentos"
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000
Por José Castello 
São Paulo, 11 (AE) - Dois livros de Vilma Guimarães Rosa
a filha de João Guimarães Rosa, chegam às livrarias simultaneamente. O primeiro deles, "Mistérios do Existir" (Nova Fronteira, 213 págs., R$ 21,00), reunião de 14 contos, é a oitava coletânea de relatos breves da escritora - gênero de que estava afastada desde 1986, quando lançou "As Visionárias". O outro é a segunda edição, revista e ampliada, do já clássico "Relembramentos: João Guimarães Rosa, Meu Pai" (Nova Fronteira
514 págs., R$ 29,00), de 1983, em que ela traça um esboço de biografia do autor de "Grande Sertão: Veredas".
No livro, de perfil intimista, o médico, diplomata e consagrado escritor é mais o Joãozito, como era conhecido entre os mais próximos, homem sensível, religioso e que amava a natureza, e não o escritor denso e misterioso de que se fala. Em "Mistérios do Existir" reaparece, mais uma vez, a Vilma de escrita delicada, que o pai, na última entrevista que deu, assim definiu: "Vilminha tem boa fabulação. Seus contos são imaginosos, prendem a atenção e são reflexos de sua intensa atividade intelectual, desde criança".
Descontados os exageros do amor paterno, a descrição que Rosa faz da filha escritora toca em dois pontos importantes: a imaginação, que em Vilma está acima de qualquer outro predicado, e a constatação de que nela trabalha, sempre, uma "intensa atividade intelectual", modo mais solene de referir-se à mente prolixa e agitada da escritora, aspectos que, naturalmente, transferem-se para suas narrativas. Temática urbana - Ao contrário do pai, que se celebrizou por suas experiências radicais com a linguagem, Vilma escreve de modo singelo, direto, franco, com frases curtas, parágrafos também curtos e um vocabulário coloquial. É nesse estilo objetivo que, paradoxalmente, ela revela sua sensibilidade de escritora. Também ao contrário do pai, fascinado pelo Brasil enigmático do sertão, as narrativas de Vilma preferem uma temática urbana, ou, quando se transferem para o interior, oferecem uma visada ingênua do País.
Sua vocação é, sem dúvida, para o flash sucinto, passageiro, que toca a realidade pela pele e aí se fixa, sem nenhuma pretensão de perfurá-la em profundidade. Em "Relembramentos", como já se sabe, Vilma oferece ao leitor esse seu estilo reto, sem fingimentos, sem contrafação, construindo um olhar bastante pessoal do autor de "Grande Sertão". Não se trata de uma biografia clássica. Ao contrário, poderia no máximo ser visto como um grande rascunho para uma delas, reunindo, de modo disperso e guiado mais pelos motivos da afetividade, textos inéditos, cartas, fotografias, entrevistas que, dispostas em mosaico, sugerem um retrato confidencial de Rosa.
Imagem que aparece retalhada em textos que percorrem um espaço de 37 anos e nos quais, portanto, o escritor se metamorfoseia, atestando a célebre definição de Otto Lara Resende, que um dia afirmou que "a obra de João Guimarães Rosa é uma cordilheira". O homem também. Desde a estréia, com "Sagarana", Rosa perseguiu o sucesso; contudo, deixou sempre trancada a porta de acesso à sua intimidade na qual Vilma, com a delicadeza e inocência próprias das filhas, vem apenas tocar. Mesmo amigos muito íntimos, como o escritor José J. Veiga, apesar das confidências masculinas, jamais conseguiram ultrapassar essa barreira pessoal.
No livro de Vilma, Rosa aparece vestindo várias peles, desde a do Vovô-Beleza, como ele gostava de ser chamado pelos netos, passando pela imagem do Joãozito, até chegar a ser o Guimarães Rosa dos compêndios literários - e fica-se sem saber, ao final, qual deles está mais próximo da verdade. Vilma acentua a faceta introspectiva de Rosa, sempre pensativo, moendo pensamentos mesmo quando conversava com os amigos, espírito multidimensional a transitar em várias esferas, que no entanto jamais se excluíram. Mostra ainda como o sertão funcionava, para Rosa, como um abridor de sonhos. E ainda como ele foi, no fim, um sujeito habituado a conflitos: em vez de fugir deles, Rosa como que os aperfeiçoava, transformando o conflito em vitalidade
e logo em literatura.
Vilma tem o hábito, contudo, de enfatizar, sempre que pode, o "espírito cristão" do pai (cita uma peregrinação a Lourdes, o terço de metal sempre na gaveta de trabalho), o que, para além das crenças pessoais do escritor, pode servir para simplificar sua obra, transformando os embates filosóficos entre o bem e o mal que nela se travam numa reduzida simulação religiosa, quando isso - basta ler Rosa com alguma atenção - não é verdade. Homem doce - Não aparecem também revelações ou confidências que possam inverter ou perturbar radicalmente a imagem do pai, de modo que Rosa nele surge como uma espécie gentil de quase-santo, homem doce, sempre disposto a ouvir, sempre paciente, retrato que, evidentemente, não corresponde à verdade, simplesmente porque não corresponde à verdade de ninguém. Vilma se mostra animada não só com o novo livro de contos, como com o relançamento de "Relembramentos".
Ela escreve desde menina e o incentivo do pai, enfatize-se, nunca lhe faltou. "Papai sempre demonstrava entusiasmo pela filha escritora", recorda, em seu apartamento londrino. Vilma vive na Inglaterra, onde trabalha, desde 1988, como funcionária do departamento cultural da Embaixada do Brasil. "Ele se interessava por minhas histórias, mas jamais procurou influenciá-las", diz ainda, de modo que sempre se sentiu livre para escrever à sua maneira. "A minha construção literária é diferente e o meu estilo é bem próprio", acrescenta
e aqui não esconde uma ponto de justo orgulho, já que para um escritor ser filho de Rosa não deve ser nada fácil.
Vilma recorda que também o pai teve grande incentivo na família quando fez a escolha pela literatura, sobretudo do avô e padrinho Luís Guimarães, que também foi escritor. "Acredito no atavismo", ela diz. "Uma bela herança deve ser bem aproveitada". Apesar da admiração que sente pelo estilo do pai, Vilma jamais se preocupou em imitá-lo, preferindo escrever do seu próprio modo, seguindo o que lhe dita a imaginação. Fixou-se no conto, que muitos consideram o gênero mais difícil, por exigir síntese e uma estrutura de relojoeiro. "Mas, para mim, é fácil, pois gosto de ser uma contadora de histórias", diz.
As histórias de Vilma tratam de datas como o Natal, de música, do amor, da vida tal qual é; ora simulam uma entrevista com um escritor em plena neve, ora se passam num hotel de Trinidad, ora durante uma viagem a Berlim. E são escritos numa linguagem franca, sem empostação, o que lhes empresta bastante leveza. A esse estilo ela chegou por justaposição, cultivando seu próprio olhar sobre a obra do pai. Diz, por exemplo, que, embora reconheça a grandeza de "Grande Sertão: Veredas", "um livro fabuloso, de forte intensidade dramática", considera os contos de Rosa magistrais.
"Cada um deles é uma obra importante, pois meu pai viveu uma profunda integração pessoal na própria transa de suas histórias", avalia. Dá, nesse caso, o exemplo de Tutaméia, um livro difícil, normalmente desprezado. "Nos quatro prefácios de Tutaméia, ele projeta a própria alma; é o reflexo de uma catarse". Sensibilidade - Também não se impressiona com a fama de escritor impenetrável que fustiga a literatura de seu pai e recorda que os mistérios da ficção são criados "não com o objetivo de serem decifrados, mas sim interpretados à luz da sensibilidade de cada leitor". Para Vilma, o segredo literário de Rosa é sua extrema sensibilidade de criador de histórias, isso sem esquecer da originalidade de sua linguagem, "que lhe deu uma personalidade inconfundível no cenário da ficção brasileira", afirma. "Rosa é incomparável, só é igual a si mesmo".
Além de divulgar o Brasil profissionalmente, Vilma Guimarães Rosa faz palestras, em toda a Grã-Bretanha, a respeito da literatura brasileira. Sua grande diversão em Londres, além da literatura, é o cinema. "Um dos sonhos que acalento há anos é assistir a um filme baseado num de meus contos", confessa. Quando escreve, admite, projeta-os cinematograficamente em seu pensamento. "Enquanto isso não acontece, é bom sonhar".
Ela trabalha agora, mas só mentalmente, no projeto de um livro de memórias, que se chamará "Na Virada do Século" e terá o mesmo modelo dos "Relembramentos de Rosa". "Será o meu "Relembramentos", mas não será uma autobiografia, apenas contarei a minha história, transmitindo as lições de vida que aprendi e as alegrias e tristezas que atuaram na minha vivência, moldando minha personalidade", antecipa. Vilma se declara uma entusiasta da vida. "Por isso dou a vida aos meus personagens, com prazer e emoção", conclui.


