Villa-Lobos pelos irmãos Assad
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de setembro de 2001
Ranulfo Pedreiro <br> De Londrina 
Villa-Lobos não era nada light ao tocar violão. Com a caixa comprimida contra o peito, impunha intensidade ao instrumento, que parecia sucumbir à pressão. A potência interpretativa não podava a agilidade que o músico tinha em ambas as mãos.
Essas características foram transferidas para as peças de Villa-Lobos para violão, colocadas entre as mais importantes do século no repertório do instrumento. Essa obra foi visitada na década de 70 pelo duo Assad, formado pelos irmãos Odair e Sérgio. O trabalho resultou no álbum duplo ''Obra Completa para Violão Solo'', em que Odair se dedicava aos ''Estudos'', enquanto Sérgio se ocupava dos ''Prelúdios'' e da ''Suíte Popular Brasileira''. Este foi o primeiro disco da dupla e se tornou referência para interpretação das composições de Villa-Lobos. O disco, histórico, está sendo relançado pela Kuarup e reforça o prestígio que o Duo Assad ganhou mundo afora.
O repertório é, ainda hoje, um desafio para os instrumentistas que desejam sair da mera reprodução para imprimir personalidade interpretativa justamente o que a dupla conseguiu já no primeiro disco.
Villa-Lobos presenciou ativamente a transformação que a música popular estava passando na virada do século 20, convivendo com as rodas de choro sem abandonar os salões que privilegiavam a música considerada erudita. O violão foi aprendido na farra, em rodas boêmias recheadas de improviso que agregavam estilos diversos.
Esse aprendizado prático foi mesclado, posteriormente, com a bagagem teórica que o músico já acumulava. Neste ponto, a biografia de Villa-Lobos converge com o respaldo musical dos irmãos Assad, que transitam desde as salas de concerto às rodas de choro dos bares cariocas.
Não é à toa que a interpretação relançada agora pela Kuarup impressiona. A partitura não aparece aqui como uma mordaça, mas ganha uma fluência arejada sem perder a intensidade característica do compositor. Os momentos de ataque mostram força necessária, as sutilezas são respeitadas e audíveis. Em começo de carreira, os irmãos já mostravam uma espontaneidade rara nos dedos.
Sérgio Assad abre com os ''Prelúdios'', um total de cinco peças compostas em 1940. E prossegue pela obra mais antiga, a ''Suíte Popular Brasileira'', feita entre 1908 e 1912, que abriga cinco músicas. Odair Assad se dedica aos ''Estudos'' (12 no total), de 1929, além de ''Choros nº 1'', de 1920.
No ''Prelúdio nº 5'' que tanto influenciou Tom Jobim , por exemplo, Sérgio passa com naturalidade pela riqueza melódica da primeira parte, acentua o suspense da segunda e destrincha a velocidade dos acordes e arpejos da terceira.
A dificuldade também é grande nos ''Estudos'' enfrentados por Odair Assad. São composições que exigem um equilíbrio técnico de ambas as mãos, explorando os recursos do instrumento sem colocar a melodia em segundo plano. Se a mão esquerda é testada no ''Estudo nº 12'', a direita é questionada no ''Estudo nº 1''.
Tudo isso sem trastejadas, tropeços ou beliscões. A clareza interpretativa é realçada pela boa qualidade da gravação. O disco foi feito como brinde de uma empresa e chegou a circular no mercado, mas virou raridade. Com o relançamento, 23 anos depois, compreende-se por que foi tão caçado nos sebos.
Heitor Villa-Lobos Obra Completa para Violão Com os irmãos Sérgio e Odair Assad. Relançamento pela Kuarup (www.kuarup.com.br), telefone (21) 2201017. O disco é vendido na home page da gravadora por R$ 18,00.


